Viu-se, também, outro sinal no céu, e eis um dragão, [...] e o dragão se deteve em frente da mulher que estava para dar à luz, a fim de lhe devorar o filho quando nascesse.
Não havia cor naquele dia. O céu estava nublado e ameaçava chover. Ventava forte e as folhas eram arrancada das árvores. Era uma cidadela desabitada. As casas estavam quase todas demolidas e a floresta parecia querer engolir o local esquecido pelo homem.
Alexander havia recebido uma carta codificada de Adriel contendo a seguinte mensagem:
E lá estava o rapaz. No mesmo dia, havia pedido uma permissão à cidade de prata para fazer uma investigação em meio aos humanos.
O sol que raiava escondia-se sob as espessas nuvens que oscilavam entre um azul, um negro e um cinza. Na entrada da cidade, encostado a uma das casa que estavam em melhor condições, o captare viu o carro dos Angellin’s estacionado. Pensou em entrar, mas lembrou-se da carta e voltou a se dirigir à igreja

Ainda não havia chovido, mas a entrada da construção em ruínas estava repleta de água. Deste o chão de terra até os degraus. Empurrou a porta que se abriu com dificuldade fazendo os rangidos típicos da idade. As paredes e o chão também estavam molhados e o barulho dos passos nas poças d’água ecoavam pelo local.
O Angellin percorreu todo o salão principal, passou pelo altar e antes de entrar no compartimento seguinte notou inscrições em nanquim camufladas nas manchas da parede, e no chão; mesmo com a água, a inscrição permanecia intacta. Além das inscrições, notou também as marcas de um poder que havia aprendido com Adriel. A Arte do glifo. E tanto as inscrições quanto o grifo passavam a mesma mensagem:
“Afastai maus espíritos”
Alexander continuou entrando Igreja adentro, e sempre antes de entrar em um novo aposento, encontrava as inscrições em nanquim e o glifo no chão.
“Afastai humanos”
“Afastai mortos vivos”
“Afastai mortos vivos”
Espíritos malignos, demônios, vampiros, lobisomens, humanos e assim por diante. Alexander nunca havia visto tantas proteções em um só lugar. Porém, chegou um momento em que nem mesmo o anjo conseguiu avançar
“Afastai bons espíritos”
“Afastai anjos”
Eram duas barreiras místicas que o impediam de prosseguir“Afastai anjos”
Do outro lado do aposento, passos se aproximavam cada vez mais.
- Eu sabia que você viria
- O que vocês estão escondendo aqui? - Perguntou o rapaz assustado. Adriel apenas sorriu enquanto raspava um pouco do nanquim da parede fazendo uma fenda na inscrição
- Pode entrar agora – Tendo Alexander assado, o anjo pegou um pote de nanquim e uma pena, que Alex pôde identificar como sendo das asas de Alice, e completou a fenda – Venha comigo – Disse o Angellin. E o captare o acompanhou.
Chegando a porta de um quarto, que servia como dormitório para os padres, Adriel começou a abrir. E mesmo sendo dia, tudo o que Alexander via pela fresta da porta era escuridão.
- Alice, somos nós...
Quando a porta se abriu completamente, viu-se como um manto negro regredindo dos quatro cantos do quarto, a escuridão recuava e a pouca luz deixana no local apenas uma penumbra.
- Uma, uma maga de trevas?- Indagou admirado o rapaz- Alice é uma maga de trevas? Desde quando?
- Desde antes de você nascer, lindinho – Respondeu com um sorriso nitidamente exausto
Alice estava extremamente pálida, seus lábios estavam rachados e esbranquiçados. A região de seus olhos estava bastante arroxeada e funda. Mas ainda sim,parecia estar coberta por uma aura de frlicidade. Alexander nunca imaginou que a pessoa com quem compartilha suas primeiras memórias poderia ser uma maga que domina as trevas.

Os longos cabelos loiros ondulavam sobre os lençóis branquíssimos. Estava sentada, envolta numa manta grossa. Havia uma bacia com água a seu lado. As malas com lençóis e outras coisas estavam sobre os antigos móveis para não se molharem com água que estava pelo chão.
- Venha aqui- Disse em voz fraca, Alexander permanecia parado tentando assimilar toda aquela situação
- Vá logo, rapaz! –Disse Adriel enquanto refazia o glifo que havia quebrado para que o anjo entrasse. - Não permita que ela se esforce.
Alexander entrou no aposento a passos lentos. Adriel saiu por outra porta que ficava ao lado e voltou com um balde de água.
- Porque toda essa água?
- É água benta
- E de onde você está tirando tanta água benta? – Estranhou o rapaz. Já que Adriel não possuía o dom de abençoar água. E a quantidade de água era grande demais para ainda conter numa igreja abandonada.
- Um querubim, uma certa vez, me deu um crucifixo que torna benta toda a água que toca. E, existe um poço aqui dentro da igreja. – O anjo carregava a água com certa dificuldade. Os olhos tão cansados quanto os de Alice. Uma expressão esgotada.
- Adriel, largue esse balde e vá descansar...
- Eu estou bem, Alice, não se preocupe, eu estou bem... Você que deveria estar descansando
- Você ... você não está bem. O filhote está aqui. Você já pode descansar agora – Adriel colocou o balde no chão e se aproximou de Alexander que estava encostado à cama.
- Você veio como anjo?
- Como?
- Veio... – O anjo virou o rosto do rapaz e desenhou com o dedo um H na testa do captare (Poder angelical de captare: Disfarçar a marca angelical) – A partir de agora, não abaixe a guarda nunca!
- Adriel, vá descansar ...- Insistia Alice
- Eu já disse que estou bem...
- A quantos dias ele está sem dormir?
- Quatro ou cinco...- Respondeu Alice encarando Adriel
- Você acha mesmo que vai ajudar continuando sem descansar? O que vai conseguir fazer se invadirem este lugar? - Falou numa tentativa de manipular o anjo.
- Como bom Angellin que sou, vou derrotar a todos.
- Você é um Angellin mas não é Deus.- Retruncou Alexander já perdendo a paciência- Que pessoa teimosa!
- Lindinho, você pode me fazer um favor? - Alice falava com um sorriso irônico no rosto- Você poderia socar a barriga dele com bem muita força. Talvez assim ele me escute e deixe de ser prepotente
- Mas eu já falei!!!
- Fale baixo, assim você vai acordá-las
- Acordá-las?- (Alex boiando no assunto)
- Está bem, esta bem. – O Angellin se afastou, encostou uma cadeira na parede e puxou um banquinho para apoiar as pernas. Feito isso se sentou e fechou os olhos
- Desculpe filhote, mas nós estamos bastante cansados.
- Eu percebi, mas, você disse acordá-las? Quem mais está aqui?
A mulher sorriu, e fez um gesto para que o captare se aproximasse e afastou a manta. Do seu lado, envoltas em lençóis brancos, dormiam dois recém-nascidos.

- A primeira é Bianca, a mais velha. Esta é Beatriz. Minhas duas gêmeas
Alexander não conseguiu raciocinar por algum tempo. Sua mente vazia apenas contemplava as duas crianças que pareciam desconhecer a confusão ao seu redor. Depois de Algum tempo o anjo conseguiu se pronunciar.
- Nós temos...- Era a primeira vez, em seu mais de meio século de vida, que Alexander via dois anjos gêmeos. Nunca siquer tinha ouvido falar em um acontecimento como esse, o nascimento de um anjo filho de dois anjo já era uma coisa rara. Imagine o nascimento de gêmeos filhos de dois anjos - Temos que comunicar à Família... Mais duas Angellin’s nasceram. Eles vão fazer uma festa quando souberem... São mais dois captares na Família
- Elas não vão ser captare - Disse Adriel do outro lado da sala, mantendo os olhos fechados – Alice não as quer envolvidas no nosso mundo de sangue.
- Elas não vieram ao mundo para tirar vidas, Alex – Disse a mulher se cobrindo com os grossos lençóis – Elas irão salvar vidas. Serão protetores. Serão da casta que eu mais admiro por fazer exatamente aquilo que não conseguimos. Ver o milagre de Deus em todas as coisas e ser puro o suficiente para ouvir a sua voz. Elas serão querubins. - Alice começou a tremer. Alexander encostou a mão em sua testa.
- Ela está queimando de febre
- Droga! – Disse Adriel levantando-se. - Já não sei o que fazer para essa febre passar. – Aproximou-se da cama e mediu a temperatura de sua esposa. – Tenha calma, minha vida- E deu-lhe um beijo nos lábios - tenha calma e resista...
- Vamos levá-la a um hospital!
- Não! – Disse Alice num impulso
- Calma Alice, calma.- Adriel foi até a mala e pegou alguns remédios, álcool, algodão e uma injeção. – Em pouco tempo a febre vai passar, mas assim que o efeito do remédio passa a febre volta. E também, por causa da medicação, ela não pode amamentar.
- Adriel, eu não soube que a Cidade de Prata havia dado permissão para o nascimento de um Angellin
- E não deu...
- Então como Alice conseguiu dar a luz, não só a uma, mas a duas crianças?-Adriel permaneceu calado, como se ignorasse as palavras de Alexander, depois de notar que o anjo não iria respondê-lo, Alexander mudou a pergunta - O que pretendem fazer agora?
- Não permitir que ela... ou as crianças morram.

Nenhum comentário:
Postar um comentário