(Re)Inicio parte 2
A brisa de uma eterna manhã corria pelos campos como um manto cobrindo a terra. Pássaros cantavam ao longe. Uma cachoeira escorregava por entre pedras e deslizava majestosa entre uma fenda colossal.
Nesse cenário, como quem mergulha para o infinito, uma jovem que estava sentada a beira do precipício se joga displicente. As duas asas de um branco alvíssimo cujas penas se tornava difícil distinguir começaram a bater em um descompasso acelerado. Sem a sincronia necessária para um primeiro vôo o par começa a girar. O chão ficava cada vez mais perto, as pedras pareciam apreciar o espetáculo com uma frieza mórbida. Até que a queda é interrompida por uma mão e segura as asas em pleno ar.
- É, não deu... - Comentou a querubim com um sorriso.
- Bianca... Você deveria ir mais devagar - Alexander pousou a garota a margem da queda d'água
- Eu queria fazer aquelas cenas cinematográficas - O rapaz respondeu com um sorriso terno.
- Vem, vamos para casa... - Disse se aproximando
- Mas a nossa casa não foi destruída?
- Não, aquela é a casa da família, temos uma casa aqui em cima, uma casa que pertenceu a nossos pais. Mas nós morávamos na terra. Numa cidade chamada fortaleza...
- Porque eu sinto uma preocupação latente quando penso nessa cidade?
- Como eu disse, nós temos alguns problemas, mas você não precisa se preocupar, não precisamos voltar agora. Você pode descansar...
- Eu gostava da terra?
- Acredito que sim... - O rapaz ajeitou uns fios de cabelos que displicentes se jogavam no rosto da jovem que retribuiu com um sorriso singelo, honesto, sincero -... Sabe Bianca, eu estive pensando... Você não quer ficar por aqui?
- Como assim?
- Você está mais leve, mais feliz aqui, eu pensei em descer, resolver os problemas que nós temos na terra...
Uma angustia lhe tomou o peito, a simples menção a se separar do rapaz a sua frente lhe apertava o coração tão forte que roubava o ar. Seu peito acelerava como se quisesse gritar em protesto.
Abandono
- Quando a gente estava na terra, eu estava ao seu lado?
- Sim
- Então por que eu não posso ficar?!
- Está bem, vamos voltar a terra e resolver o que temos que resolver logo... Acha que já consegue voar agora?!
Os olhos fechados, os ouvidos decorando a queda d’água, o som ritmado da batida do coração. Uma asa, depois a outra, no mesmo ritmo, imitando o coração... Um... Dois... Três... Os pés saem do chão...
A jovem estava pairando no ar, as asas lentamente iam se acostumando ao movimento tantas vezes repetido. O corpo lembrava, a mente esquecera. O rapaz admirava a felicidade da garota com um sorriso discreto. Ela estava leve de uma forma como ele nunca a vira. Mais radiante que o de costume.
A garota subiu aos céus, subiu até onde suas asas conseguiram levá-la. Do alto, viu a construção destruída. Paredes adornadas de um palacete destruídas pelo chão. O branco mármore, as colunas, os vitrais se misturavam ao verde da grama. Um palacete resumido a pedaços de pedra, a seu lado, a cachoeira parecia chorar pela queda do companheiro. Um pesar entristeceu os olhos da jovem.
Mais abaixo, o rapaz o rapaz olhava encantado com a inocência da garota, a altivez, a curiosidade de quem vê o mundo pela primeira vez. Ele tinha aparentemente 23 anos. Cabelos castanhos e olhos de u azul celeste, suas asas lembravam as asas de um falcão, castanhas, em tons de variadas cores. Ele fez um gesto para que ela o seguisse, e ela obedeceu.
No caminho, algo semelhante a uma pequena floresta lhe chamou a atenção, entre as arvores alguns troncos cortados lhe passavam uma saudade que apertava o peito. Algo que não sabia explicar.
- Esse não é um bom momento para visitar-mos esse lugar. Vamos logo à cabana...
A querubim acelerou o vôo, imaginava começar uma corrida em pleno vôo e saiu em disparada. Facilmente ultrapassou o captare. Já estava a alguma distancia quando notou que o rapaz seguia lentamente admirando a paisagem. Desistindo da corrida ela passou o restante do caminho voando em volta do captare ou simplesmente implicando passando a ponta do cabelo pela nuca de Alexander.
O sol ainda não havia terminado seu despertar, o vento frio de uma eterna madrugada misturado ao calor dos primeiros raios de sol envolviam a pele. Voando em um horizonte tinto em uma aquarela de cores dois anjos brincavam pelos céus, enquanto Deus derramava suas bênçãos
Bem aventuradas as crianças, pois delas é o reino nos céus.
Bem aventurados os inocentes, pois deles é a verdadeira felicidade.
Sem ouro ou jóias, sem cargos importantes ou posições de poder, sem terras, bens ou aquisições.
Simplesmente sentindo o vento na pele e o abraço do sol. Um sorriso no coração e uma felicidade indescritível por estar simplesmente vivo, por estar simplesmente perto de um alguém que se quer bem. Mesmo que simplesmente fazendo "nada" ou dando simplesmente piruetas pelo ar.
Continua...