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IV - Falando sobre estranhos [part 5]

Próximo a janela, com muitas ligações no celular, Alexander esperava impacientemente pela porta que não abria, por Bianca que não chegava. O livro em sua mão tentava diminuir a apreensão sem muito êxito. A querubim nunca ficara até tão tarde sem dar noticia alguma.

Eram quase meia noite quando a menina abriu a porta, silenciosamente, nem notou a presença na sala que olhava fixamente para ela.

Alexander colocou o livro vagarosamente sobre a mesa esperando que a jovem notasse sua presença. Bianca quase teve um susto ao ver o captare arrumado, pronto para um combate. Não como alguém que vem de uma caçada, como ela esperava encontra-lo, mas, como alguém pronto para partir para uma. Estava preparado para o pior, mesmo rezando para que nada de mau estivesse acontecido.

- Boa noite - Disse a menina meio sem jeito

- Boa noite - Ele respode e um tom baixo, mas firme - Onde minha irmã estaria a uma hora inapropriada como esta, já que pedi que ela ficase em casa?

O linguajar rebuscado, o porte imponente. Alexander sabia impor seu desgosto diante da menina de uma forma muito mais eficaz que gritos e castigos. O coração da querubim parecia querer rasgar o peito e saltar diante da velocidade que pulsava. O nervosismo era nítido na face da garota.

Como ela iria contar a Alex que passara o dia inteiro na companhia de um demônio? Isso certamente não era a coisa mais prazerosa a ouvir. Principalmente diante da forma que ele a olhava. Um olhar cansado, como se não tivese descansado um minuto.

O celular desliza da mão dele e cai no chão, a bateria fraca de tantas ligações feitas e não atendidas.

- Desculpe a demora, não imaginei que fosse tão tarde. - Entrando - Mas assim... - Procurando as palavras certas para se falar e, ao mesmo tempo, com medo da reação do captare - Eu tenho uma coisa pra contar

Ele a olhava esperando o desenrolar da conversa.
- Senta... - Bianca pega a mão dele e o conduz até o sofá. A mão gelada quase trêmula intrigava e preocupava cada vez mais o Angellin.

- Acredito que nada agora, Bianca, justifique sua ausência. Mas, continue...

- Antes de qualquer coisa, promete que não vai brigar comigo -Disse a menina sentando-se também. O anjo respira fundo, estava preocupado com sua irmã e não sabia como encontrá-la, mas agora com ela diante de si. Com ela sã e salva ao alcance de sua mão, já podia relaxar um pouco.

- Eu acabei de brigar com você, Bia, como posso jurar isso, pequena?- Num tom mais ameno.

- Certo... ok... então vamos lá...

- Onde esteve?!

- Am... Você não sabe o que eu descobri hoje... - Falando numa animação que antes não existia. Tentando nitidamente tomar o rumo da conversa.

- Onde!? - Insistiu já curioso e impaciente diante da hesitação da menina.

- Eu andei pela cidade - Desistindo de conduzir a conversa

- Sozinha? E o que eu falei?

- Assim... não exatamente sozinha

- Algum de nossos conhecidos? Eu liguei para todos e ninguem sabia onde você estava. Eu te liguei várias vezes e você não atendeu.

- Eu esqueci o celular...- Com uma expressão de : "desculpa, foi sem querer" na face. - Ah, Al ...- Já animando-se - Você sabia que o Kavurot já se meteu com politica? - Disse triunfante com a sua descoberta

- Quem é Kavurot? - Seu tom de voz era pausado como se o comentário da menina tivesse o desmontado.

- É o outro nome do Kaveira

- Bia com quem esteve e porque está se metendo com coisas que não era para você estar atrás? - Sua voz torna a subir.

- Eu não fui atras de nada. Na verdade foi ele que me achou

- Quem...Quem te achou!?- Fala rapidamente demonstrando um pouco de nervosismo

- Eu sai cedo - ela começa a falar calmamente - eu andei até um parquinho. Ai, quando eu estava lá, deitada, apreciando o céu, um homem muito bonito se aproximou.

Alexander cruza os braços, atento a cada palavra de Bianca. Ela apenas continua a falar.
- Eu me levantei ... ai, quando eu estava indo embora, ele falou em você. - Ela faz uma pausa esperando uma reação do anjo.

- Hum, continue... Qual o nome dele? Quem ele é?

- Bom, ele não me disse o nome dele a principio. Mas quando a gente estava quase vindo pra cá, eu ouvi o nome dele. André. Ele tem um irmão... Igor, se não me engano, eu vi eles conversando no telefone - Ela fala meio receosa

Alexander apoia o queixo com a mão e cruza a perna, seu semblante ficava cada vez mais sério e a olhando com um rosto mais firme ele espera as proximas palavras da menina. Que, já mais calma, fala com naturalidade...

- Ele me contou muitas coisas sobre o Demônio...
Você sabia que ele é dono de uma boate?


A menina começa a lembrar do dia e acaba se perdendo em suas próprias palavras
- Ele era totalmente diferente do que eu sempre imaginei de um ser das trevas. Ele era gentil...

Alexander abaixa a cabeça e coloca as mãos no cabelo num ato desolado e triste.

- Al?- Se aproximando do rapaz que volta o olhar para cima e ouve o que a menina tem a falar

- Continue ...- fala com uma voz baixa um olhar um triste esta estampado em sua face.

- Foi isso... - Bianca se senta no chão aos pés do rapaz apoiando seus braços nos joelhos dele. -Nós conversamos sobre muitas coisas, aí depois ficou tarde. Ele veio me deixar de Taxi aqui perto, porque era perigoso eu vir sozinha ou a pé. E foi isso... - Deitando seu rosto no joelho dele.


Ele acaricia o rosto da menina e ela fecha os olhos, estava cansada, tanto fisicamente quanto mentalmente, estava quase perdendo a consciência quando Alexander levantou sua face com as pontas dos dedos. Quando ela abriu os olhos, viu as duas orbes azuis fitando seus olhos...
- Por favor, Bia, me conte tudo! Cada detalhe do que ouve e do que vocês falaram, como ele é?

- Am...- Despertando- A conversa toda? Ou só os fatos importantes?

- Tudo é importante. - Acrescentou

- Ah, ele deixou um recado para você...- Levantando-se

- O que?

- Ele me disse que ia viajar, eu perguntei para onde, ele disse que você deveria saber... E que se você ainda não soubesse... - Bianca lembrava-se da fronta levantada pelo domônio," se ele ainda não souber, diga a ele por mim que: Se continuar assim ele não vai servir nem de entrada." procurava em sua mente uma forma mais amena de repassar o recado
- Você ... teria que ... se empenhar mais...

Ela olha no fundo dos olhos dele. Procurando qualquer pista de pensamento. Ele abaixa a cabeça como se estive-se com raiva, levanta-se e vai em direção à janela tentando controlar o sentimento. Coloca as mãos ao peitoril e observa a rua a rua procurando algum sinal. Bianca apenas o segue em silêncio. E eles permanecem assim por alguns minutos.

- Eu não acredito que aquele ...- Alexander continua a frase numa lingua que Bianca não conseguiu entender. Suas palavras eram firmes e seus olhos procuravam na simples praça vazia, que havia em frente a casa, alguma pista, algum sinal...



- Continue, Bia, por favor...

- Certo, bom, o recado foi esse. Quanto a aparência, não creio que ele tenha aparecido em sua verdadeira.

-A aparência que digo, é algo que possa nos da uma pista de onde encontrá-lo. Algo na roupa... Algum detalhe

- Cabelo negro, pele muito branca. Vestia-se como uma pessoa normal, mas chamava muita atenção. Ele era ... - A menina para no meio da frase e fica olhando concentrada para Alexander

Atento a cada palavrada menina, o captare tenta encotrar uma pista do homen que conversou com sua irmã. Apesar de concentrado, ainda deixava transparecer alguns traços de nervosismo.

- Ele não está nessa rua, e o reconheceria em qualquer lugar

- Me diga algo mais especifico que ele tenha dito sobre alguns lugares... Nordeste do pais, norte o mesmo centro-oeste?

Suas perguntas soavam como opções para a garota poder usar como referencia demonstrando que sabe algo, mas que não é preciso.

- Ele era bastante diplomático e sabia manusear as palavras muito bem. Não disse nada preciso. Ele julga que você já saiba- A menina ficou lado a lado com ele na janela - Você sabe?

Batendo sobre o parapeito de modo fraco sem brutalidade, sem perder sua etiqueta e seu auto- controle ele diz
- "droga"

- Ele era muito bem informado.
Por um momento ela se afasta. - E muito atraente também... Preciso pensar em outras coisas - Fala para si mesma enquanto se dirige a cozinha

No mesmo local Alexandre intima com voz fria e firme.
-Não quero que nunca mais você encontre esta pessoa e se o ver, Bianca, fuja!

IV - Falando com estranhos [part 4]

VIII - Companhia
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O sol já havia se escondido no horizonte, o azul iluminado do dia já havia sido substituído pelo pontilhado das estrelas no manto noturno. Bianca olhava ao redor procurando caminho mais rápido para voltar para casa. Não sabia exatamente onde estava, mas conhecia a cidade o suficiente par saber que estava longe.
Longe de casa, longe de Alexander,
... Acompanhada por um estranho, acompanhada por um demônio.

E mesmo que cada célula de seu corpo quisesse se afastar daquele local o mais rápido possivel, embora seus subconsciente esperasse a cada segundo que o demonio a sua frente fosse se voltar contra ela traiçoeiramente e atacá-la, ela permanecia ao lado dele, admirando-se com cada espontâniedade, gesto e até gentileza que ela nunca, em hipótese alguma esperou ver em um demônio.

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IX - Confiança
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- Seu perfume... - Disse ele mudando bruscamente de assunto.- É bom, mas misturado ao seu cheiro fica melhor ainda.

- Er, obrigada

- E esses cabelos? Porque tão longos? - Falava enquanto caminhava pela rua deserta, iluminada pela luz amarelada das luminárias.

- E desde quando alguém como você se interessa por esse tipo de coisa?

- Tem razão -Disse passando a mão pela cintura dela e puxando-a para junto de si - Vamos pular essas preliminares e ir direto à parte divertida - Ele a olhou no fundos dos olhos, um sorriso meia-boca, um sorriso malicioso, porte de galante medieval. Uma presença arrebatadora.

Embriagante de uma forma que todo Don Juan ou Casanova desejaria ter. Mas ele era mais, muito mais. Cada gesto milimetricamente ensaiado como parte de uma pintura, uma cena de teatro projetada para seduzir e encantar.


Seria um prazer acompanha-lo onde quer que ele fosse.
Se perder em suas palavras e ser guiada de olhos fechados pelo caminho da perdição.
Sua simples presença abalava qualquer aversão
Não havia como se negar
Negligenciar essa forma de atração tão envolvente
que arrastava a consciência para longe
A preza se oferecia em sacrifício com tamanha satisfação
Hipnotizada, envolvida, embriagada nesse canto de sereia
que mesmo sabendo que a levaria a morte
era incapaz de se negar a ouvir
Antes disso, a presa implorava, desejava, ansiava por mais
e mais... e mais... e mais...
Desse veneno de serpente, mais letal que a própria morte.

- Ra ra ra, muito engraçado- Soltando-se facilmente dos braços dele, enquanto ele ria satisfeito.

- Mas por que isso? -Ainda rindo - Ta no inferno, abraça o diabo...

- Mas eu não estou no inferno...

- Então se você tivesse, você me abraçaria?!- Concluiu com o mesmo sorriso malicioso de antes

- Não, se eu tivesse, eu faria o possível para sair de lá.

- Se você estivesse comigo- O sorriso é substituindo por um olhar mais sedutor, e segurando suavemente o queixo dela ele continua- Eu iria fazer com que você não QUISESSE sair de lá.

- Você é muito auto-confiante - Tirando o rosto da mão dele

- Eu apenas tenho total consciência das minhas capacidades- Rindo descontraidamente outra vez.

- Eu não consigo entender...

- O quê? - Se aproximando

- Você, isso tudo... Não faz sentido algum para mim.

- Bom... - Respira fundo - Acho que não tem problema e como eu quero fazer uma relação com base em confiança, eu não vou fazer como aquele espantalho e mentir ou esconder as coisas de você.

- Espantalho?

- É, fica marcando presença, botando medo, mas não faze coisa alguma. Bem, voltando ao assunto, deixe-me aliviar as dúvidas de sua mente. Se você tivesse que ascender uma fogueira, o que você usaria? Galhos secos ou sementes?

- Depende. Se eu precisasse de uma fogueira imediatamente eu usaria os galhos. Mas se eu pudesse esperar, eu plantaria as sementes e assim teria muito mais lenha.

- É exatamente esse o raciocínio. Eu não preciso da fogueira para agora. Muito embora você já confie em mim.

- Quem te disse que eu confio em você?- Respondeu automaticamente

- Não confia? Você está sozinha, altas horas da noite, com um demônio, longe da sua casa ou de qualquer outro tipo de proteção. - Ele fez uma pequena pausa para que ela tomasse consciência do que ele falava. A garganta de Bianca ficou seca, a saliva desceu como um nó. Ela estremeceu inconscientemente e começou a fazer suas promessas mentalmente
"Senhor, se eu escapar dessa eu prometo que nunca mais..."

- Quer prova maior de confiança?

- Eu não chamaria isso de confiança...- Ela própria se interrompeu, a continuação da frase era algo que não se cabia ser dito em voz alta "Eu chamaria isso de burrice ou suicídio"

- Realmente... eu gostaria que você fosse mais cuidadosa. Sua vida é muito preciosa para você coloca-la em risco com tanta facilidade. Os outros não são... digamos - Procurando a melhor forma de dizer- Eles não são como eu.

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X - Ser e não ser
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Bianca o observava sem expressão alguma na face. Ele continuou...
- Embora eu entenda que você só fez isso porque você tem um fraco por mim. Eu diria uma Química entre nós dois, é como a "lei da atração" na Física, embora eu prefira a 'dinâmica dos corpos'.

Mantendo a mesma expressão, ou falta da mesma, Bianca questionou
- Quem é você?

- O amor da sua vida... O sol do seu domingo nublado... O fogo da sua cama...

- Eu sou muito nova para isso

- Isso é só uma questão de tempo

- Desculpe desaponta-lo mas eu não vou crescer mais que isso

- Não vai?

- Frustrado?

- Na verdade um pouco, eu aprecio curvas - Desenhando os contornos femininos com as mãos- Mas você ainda tem a maioria dos pre-requisitos então... eu me acostumo

Bianca sorriu, olhou a hora no relógio. Era tarde, muito tarde.

- Eu tenho que voltar agora

- Não, não tem.

- Está tarde

- Fique mais um pouco, ele vai brigar de todo jeito, que diferença vai fazer uma horinha ou duas.

Bianca olhou o relógio mais uma vez e fez uma careta. A proposta realmente era tentadora, mas a querubim sabia que uma hora ou duas fazia toda a diferença. A distância entre a vida e a morte são apenas segundos.

Notando a hesitação da garota, o incubus continuou...
- Você poderia vir comigo... Abandonar essa vida de vingança e tragédia. Deixar todo o sofrimento para trás e simplesmente vir comigo.

- E tudo isso será meu? Todos os reinos da terra?

- Será que você poderia deixar essa rixinha de Anjos e demônios de lado nem que seja por um minuto?

- E esquecer que você é um demônio?

- Seria um bom começo...

- E isso é possível?

- Estou apenas lhe mostrando que você tem opções

- Me desculpe, mas me ensinaram a não confiar em demônios

- E por acaso eu pareço com alguma descrição de demônio que já te deram?

- Algumas

- Confesse... hoje foi um dos dias mais agradáveis que você já teve desde que chegou a essa cidade...


A querubim ficou calada
- Então porque você continua se negando a assumir que já cogitou várias vezes vir comigo? Que já argumentou e criticou várias vezes tudo o que já te ensinaram?

- Eu não posso confiar em alguém que eu não sei nem o nome...

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XI - Um nome
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- Você ainda não me disse seu nome

- Vamos fazer um acordo. Um beijo por um nome.

- Não é correto você usar de poderes para influênciar minhas vontades

- Mas eu não estou usando poder algum - A menina o encarou com um meio sorriso - Nenhum que te faça querer fazer o que você já não esteja pré-disposta a fazer.

Ouve silêncio no local. Bianca tentava diferenciar seus próprios pensamentos das idéias que surgiam em sua mente. Ele a segurando pela cintura. O celular tocou, ele atendeu automaticamente com a mão livre sem desviar o olhar do dela. Uma voz gritando do outro lado da linha quebrou toda a concentração.

- CADÊ VOCÊ, ANDRÉ?? ONDE DIABOS VOCÊ SE METEU??!!

- Você poderia falar mais baixo, Igor?
Ele afastou-se um pouco para que ela não escutasse o que era dito no outro lado da linha.

- Eu sei... eu já estou indo, acabei perdendo a hora. Eu estava procurando um lanche para viagem, mas a fome foi maior. Você sabe...OK, Resolva o que puder eu não vou demorar. Deixe que eu cuido disso.

- Está atrasado?

- É, parece que nosso encontro acabou por hoje. Eu tenho que ir resolver umas coisas com meu irmão.

- Irmão?

- Sim, um irmão mais novo. Por quê? Não posso ter um?

- Não é isso, eu apenas não imaginava...

- Eu sou uma boa alma. Só você não vê isso...

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XI - Casa
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O taxi parou a um quarteirão da casa. O inccubus se despediu com um:

- Não seria saudável se ele te visse em casa acompanhada por um ... demônio - Disse rindo. A ultima palavra soou como um sussurro para que o Taxista não escutasse. - Se bem que seria interessante...

- Não, não seria...

- Tem certeza que não quer que eu vá te deixar na porta?

- Tenho sim.- Respondeu saindo rapidamente do carro - Adeus!

- Até breve... Adeus é para pessoas que nunca mais irão se ver...

Bianca correu o quarteirão sem olhar para trás. Queria que seu "Adeus" realmente durasse para sempre. Reencontrar um demônio não era algo pelo qual um anjo devesse esperar. E encontrar um demônio gentil, educado, persuasivo e galante era ainda mais perigoso que encontrar um demônio em fúria.

Só quando alcançou a porta de casa olhou em sua volta. Não havia mais sinal de carro algum. Enfiou a chave e entrou sem fazer barulho.
Quando estava fechando a porta, ouviu uma voz familiar, cansada, baixa mas firme...

- Boa noite...

VI - Falando com estranhos [part 3]

VI-Demônio da Paixão

O braço em volta da cintura aproximou mais os dois contraindo o corpo dela contra o seu. Pode sentir o coração da menina acelerar ainda mais quando os lábios tocaram a pele. Beijo após beijo os lábios percorriam a nuca, o pescoço seguiam sem rumo provando o sabor da pureza, o gosto da castidade que se rendia involuntariamente àquelas caricias

As mão que antes empurravam os ombros do rapaz, com uma força mínima, agora apenas se apoiava. Ele a curvava de acordo com cada passo que dava, enquanto ela se deixava curvar, envolta naquele ar que gerava um misto de medo e de um outro sentimento que ela desconhecia. Como uma boneca de porcelana ou uma marionete. Como uma pétala de rosa, apoiada pelos braços dele que a seguravam pela cintura.

Porém, como que acorda de um transe, a menina voltou a si quando percebeu o rumo que aqueles lábios estavam tomando. Descendo pelo decote, seguindo em direção ao busto.
A menina o empurrou com força e com força ele a apertou no "abraço".

Ela passou as mãos por baixo do queixo dele e cobriu o decote interrompendo o percurso dos lábios. Ele abriu os olhos, apoiou a testa no busto da menina e respirou fundo...

- Desculpe, eu não pude resistir, acho que me excedi um pouco...

- Eu... eu notei... - Disse ainda assustada

- Quem manda ser uma gracinha- Disse sorrindo inocentemente enquanto a ajudava a se levantar

- Cínico...

- Eu parei, não parei?!

- Não, fui eu quem te parou

- E você realmente acha que tem força para me deter?
Bianca o encarou séria

- Estou sendo sincero, se eu realmente quisesse ter feito algo, você não conseguiria me impedir...

- E o que foi que te impediu então?

- O fato de que você tem dois donos, e que um deles arrancaria minha cabeça fora com muita facilidade, e não é do seu irmão que eu estou falando... - Bianca já ia falar mas foi interrompida pela continuação das palavras dele - E talvez essa cruz na minha testa tenha ajudado- Referindo-se ao anel com uma cruz que Bianca usava.Bianca deu um leve sorriso olhando para o anel e agradeceu mentalmente
- Não se preocupe eu não vou te atacar novamente. Não agora... -Antes que ela respondesse ele continuou- Pois bem, você veio a mim por um motivo, então vamos começar logo:
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Você pode chama-lo de Kaveira, Kavurot ou Kravurot, como quiser. Veio de Arkanum para terra na década de 80... É dono da mais conhecida boate Sadomasoquista da cidade, a Mystical... - Ele para e olha para ela como se tivesse tido uma grande ideia- Se quiser conhecer eu te levo lá. Mas só se for hoje, porque amanhã eu estou de viagem.

- Não, muito obrigada

- Mas, seria até uma boa ocasião, você resolveria com ele a história da sua irmã. Se foi ele quem a tirou de você, ele pode devolvê-la. Ele teria as duas, e eu ganharia a minha comissão, que não vem ao caso agora. Vê, todo mundo iria terminar feliz. O que me diz?

- Se você quer tanto assim me levar para ele porque não me sequestrou ou coisa do tipo?

- Essa foi uma sugestão, minha linda, pensei que teria curiosidade de conhecer o lugar. Mas quanto ao sequestro, fique sabendo que se ainda não foi feito é porque não está na hora, ele é um ser inteligente, Bianquinha, não colhe os frutos antes que eles estejam devidamente maduros. Ele não vai por seu jogo a perder por uma precipitação.

- E que jogo seria esse?

- Ele é um demônio, e como eu disse, demônios querem coisas específicas, ele quer algo simples. Uma coisa cobiçada por anjos, homens, muita gente...

... ele quer poder ...
E pretende consegui-lo com um ritual cheio de ingredientes, no mínimo exóticos, dentre eles o sacrifício de virgens em locais específicos... que eu, infelizmente, não posso revelar.

- E o que você ganha seguindo ele, já que o ritual é para ele ganhar poder, e os outros?

- Se preocupando com os que não são se sua raça?! Meu anjinho, não se preocupe, todos fazem alguma coisa por algum motivo. E é claro que eu não vou te contar as minhas motivações, seu foco é outro. Você não quer saber sobre mim, você quer saber sobre o meu... sobre o Kravurot, correto?! ...

- Tem razão. Pode prosseguir então?

- Seu pedido é uma ordem...

- Ele manipulou algumas mentes e se tornou André Luís Portela Dacier Lobato, entrou numa família de classe média alta... Foi nessa época que conheceu um Xamã, que lhe ensinou magia. Depois de desposar a filha dele e se tornar pai, ele seguiu com a sua, como dizer... família para outra cidade.

- Que cidade?

- Seu irmão deve saber, e se ele ainda não souber, diga a ele por mim que:
Se continuar assim ele não vai servir nem de entrada.

- Como assim?

- Ele vai entender. Quer que eu continue?

- Desculpe...

- Kaveira até tentou ganhar a vida na política mas não deu muito certo, muitos impecílios o fizeram desistir, por fim, ele resolveu deixar isso de lado e continuar com o plano primário. Para conseguir os virgens ele montou a boate, que fez muito sucesso.

Os jovens se seduzem facilmente pela beleza, e perder a virgindade com um belo sedutor ou com a mulher mais linda que seus olhos já viram é quase uma honra.
É assim que funciona.
Uma noite de prazer e magia paga com o preço de uma alma.

- Você fala na morte com uma naturalidade

- Gracinha, quando se convive com ela, se torna quase uma coisa banal. Os seus também a tratam assim, veja como falam dos extermínios de demônios e dos locais que são purificados ou coisas do tipo. Não deixa de ser morte.
Agora, como são os anjos que fazem, se torna algo puro e bom, por mais que seja um ato que inspire maldade. Já pensou nisso?

Ou seus olhos continuam fechados para a verdade? Para a realidade do mundo?

- Não é a mesma coisa, demônios machucam seres humanos. Não têm escrúpulos na hora de alcançar seus objetivos.

- E os anjos tentam implementar uma ditadura- complementou ele

- Não!

- Anjinho, dê aos homens a liberdade e veja o que eles escolhem. O meio mais fácil, o meio mais prazeroso, dê aos homens a chance de paz e eles farão a guerra, porque com a guerra se pode lucrar mais.

Quem será que está certo no fim das contas?! Sejamos justos, vivemos numa democracia, vejamos o voto da maioria
... Você sabe o que eles vão escolher, o que eles sempre escolhem... Pare um pouco e pense:
A quem vocês protegem?
Por que vocês protegem?
Realmente vale a pena?
Vale as almas que se vão degladiando-se com seres das trevas?

- Você não vai me convencer, como uma serpente convence, que o pecado é melhor e mais lucrativo - Disse séria, o incubus começa a rir

- Você é realmente uma graça, minha linda- Disse tocando o rosto dela- Eu não estou tentando convencer você a nada, já notei que você tem uma fé cega.

É mais fácil por uma postura defensiva e acreditar no abstrato que reconhecer que tudo o que você acredita é um sistema falho, e é mais difícil ainda tomar uma iniciativa. Principalmente quando aqueles que tomam alguma iniciativa são tachados e discriminados.

Eu só queria abrir os seus olhos, eu só queria que você visse, além dessa venda branca que puseram em seus olhos.

- Por que todo esse interesse? Que diferença vai fazer pra você se eu ver ou não?

- Eu queria que você fosse minha, só por isso. Por que se ele não te quiser eu vou pegar você pra mim. E eu confesso que seria muito mais prazeroso se você quisesse.

Bianca não soube o que responder. Procurou palavras mas elas não vieram a sua boca.

- Vocês falam de livre arbítrio mas isso não passa de uma teoria. Vocês vivem num regime de servidão coletiva, acreditam mais por medo do castigo que realmente por amor.
Nós realmente semeamos o livre arbítrio, você não será punido por ninguém, você não tem um código a servir. Faz o que quer o que acredita ser o certo. Isso é o livre arbítrio. Não essa lavagem cerebral que faz com que nos tornemos escravos de algo que nem podemos ver.

Não estou pondo em questão a existência ou não, estou apenas dizendo que Deus é um ditador onipotente, oniciente e onipresente...
que fala de amor mas conquista com o medo,
o medo de ir para o inferno,
o medo de receber o cálice da ira divina.

E o primeiro revolucionário, o primeiro que o questionou foi banido.
Expulso, como fazem até hoje com quem não aceita se submeter as ordens que eles " julgam ser o correto " e o seu julgamento onde fica? A sua opinião pessoal?

-
Você está distorcendo as palavras

- Estou mesmo? E quanto aos anjos que cairam por amar?
Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram.(Gênesis 6:2)
- Uma amor condenado pelos céus... Mas se Deus é amor, ele não estaria se condenando assim? Ele não estaria tirando o livre arbítrio dos que escolheram amar a própria criação divina?

-
E lhes foi dado o direito de escolha, e eles escolheram desobedecer aos céus.

-
Você ainda é nova lindinha, daqui a alguns anos quando nos encontrarmos novamente, quando você sair do casulo e enxergar o mundo, nós conversaremos novamente. Afinal não se esqueça, você tem um dono...

... E quando chegar a hora...
... ou ele vai vir até você ...
... ou vai fazer com que você vá a ele.
Mas isso só será quando chegar a hora,
quando você estiver pronta...

Bianca estava séria, havia no local uma aura de tensão, as palavras do rapaz soavam como uma profecia, como uma previsão do inevitável. Uma acontecimento que Bianca teria que saber como evitar - E quando vocês se encontrarem, dê uma olhadinha em volta, eu vou estar por perto. Se procurar direito você vai me encontrar.

Ao terminar essas palavras que soavam como uma maldição ele mudou completamente as feições retornando à postura de um mero gracejador.
- Bom acho que eu já te disse muita coisa, já dá para ter uma ideia de quem você procura. - Já esta anoitecendo e eu tenho que ir. Tem certeza que não quer conhecer a boate comigo?- Disse sorrindo de uma forma tão doce que acompanha-lo a qualquer lugar que fosse não parecia uma má ideia

- Agradeço o convite, mas não posso aceita-lo.

- Que pena... Bom, então, vamos indo? Ainda tenho que me certificar de que certa mocinha chegue sã e salva em casa...

VI - Falando com estranhos [Part 2]



IV- Joguinhos
A mulher com quem ele estava conversando era extremamente bela. Os cabelos castanhos, a pele bronzeada, um olhar marcante, ela era inconscientemente sedutora. O casal chamava a atenção naquela humilde pracinha. Ele estava vestido como qualquer rapazote da sua idade. Porém havia algo nele que prendia a atenção e disputava os olhares com o da morena a sua frente.

Ela estava vestida com uma blusa preta semitransparente pela qual se podiam ver os detalhes do sutiã que ostentava o farto busto, além de realçar as curvas da silhueta de um corpo que mais parecia ter sido desenhado à mão.

Bianca mal desviava o olhar, fascinada com a beleza da mulher. Esta, notando a admiração da garota inclinou-se para frente fazendo com que seu busto saltasse à vista, em seguida para completar começou a acariciar os seios com um olhar que de tão malicioso parecia um convite para a perdição, acariciava o próprio corpo com o olhar oscilante entre a menina e o seu companheiro. Este, por sua vez, procurava com o olhar a vítima daquela súccubus, até ver a querubim completamente desconcertada.

- Você é má- Disse rindo enquanto se afastava e seguia em direção à garota

- Não posso evitar - ela respondeu imitando ironicamente uma cara de inocente- É mais forte que eu...
XXX

- Eu não disse que você vinha?!- Disse triunfante enquanto passava o braço pelo ombro da menina.

- Eu quero apenas saber o que você quer comigo

- Que rispidez... Tão fria, tão direta...- Ele segura a face dela e a vira em direção à sua fazendo com que seus lábios quase se toquem -Você não é assim...

Bianca se afasta, ele sorri com um ar de brincadeira e continua a falar
- Não se preocupe, eu sei me comportar. Agora vamos andando, não queremos comentários depois, certo?!

-Você ainda não respondeu a minha pergunta- O acompanhando na caminhada

- Para ser franco: Eu quero me divertir. Quero deixar o jogo mais... interessante. Existem pessoas que se divertem jogando, pescando, dançando, matando, seduzindo... Eu me divirto dando as cartas do jogo e vendo como cada uma das peças desse jogo de tabuleiro vai se mover.

- Em outras palavras, você gosta de manipular...

- Pode-se dizer que sim... Mas, sabe Bianca, você tem uma visão muito unilateral das coisas. Nem todo demônio quer a destruição do mundo, alguns querem apenas curtir sua existência e cumprir seus objetivos próprios. Assim como nem todo anjo quer a salvação da terra, porque se assim fosse não haveriam tantos caídos entre nós e isso é sem contar aqueles que ainda não foram pegues.

- Então você está dizendo que eu devo acreditar mais nos demônio e menos nos anjos

- Eu estou dizendo que você tem que ser esperta e tirar o melhor dos dois. Afinal a humanidade é uma que vive aspirando se tornar Deus, mas vive fazendo pacto com o Diabo.

- Você... é um demônio, não é?

- Eu sou o que você quiser, anjinho: Demônio, anjo, amigo, irmão, tio, bombeiro, eletricista, surfista, basta pedir...

- E o que você vai ganhar em troca?

- Eu? Em troca do quê? Das informações?

- Sim, você é um negociante... ou estou enganada?
Ele sorriu como sempre

- Eu sabia que não iria me desapontar... Bom, eu vou ter a satisfação de ter ajudado uma pessoa que precisava de um empurrãozinho
- Bianca o olhar fixo, estava séria, ele tira por um segundo o sorriso do rosto e responde com a mesma seriedade da menina- Como eu já disse, eu quero me divertir, as coisas estão muito paradas.- O olhar dela se torna mais ameno

- Então você gosta de ver o circo pegar fogo...- Disse sorrindo

- É um belo espetáculo - Disse com uma voz cativante

Bianca se sentia estranhamente à vontade ao seu lado, a franqueza das palavras dele haviam desarmado suas reservas em relação ao rapaz. Ele estava sendo completamente diferente do que ela esperava, e até mesmo, do que ela imaginava de um ser das trevas. Ela respira fundo e solta quase num desabafo:
- Você é bastante franco...

- E se eu não fosse você teria me dado ouvidos? Você teria tacado esse guarda-chuva na minha cabeça, não ouviria metade do que eu tenho a dizer, e eu teria perdido o meu tempo em vão.

- Realmente...

- Aposto que fui mais verdadeiro que seu irmão
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V - Persuasão
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- Você tem uma certa implicância com meu irmão, ou é só impressão?

- Eu apenas não entendo como você consegue viver ao lado de alguém que não confia e você. Na minha opinião a forma como ele te trata é uma falta de respeito. Ele te sufoca sob as asas dele e exige de você coisas que não dá em troca.- O tom do rapaz era de indignação, havia emoção em suas palavras e uma convicção que dava a ele ares de conhecer a verdade absoluta.

Bianca estava com um semblante meio triste, ouvir aquelas palavras lhe doía no fundo d'alma. Aquela não era a sua opinião, mas ele estava lhe mostrando os fatos de uma forma a qual ela nunca tinha parado para analisar.
- Você tem os mesmos direitos que ele, afinal, você passou por tudo o que ele passou, teve que superar dores que uma menina da sua idade não deveria, ele já era homem formado, mas você... era apenas uma criança. Você tem tanto, ou mais direito de querer saber sobre que quase lhe tirou ou roubou a vida. Seu irmão, no entanto te prende uma bola de cristal como se só ele pudesse lhe tocar.

- Ele faz isso para me proteger- Bianca não se importava de ser trancada em uma bola de cristal, desde que Alexander tivesse ao seu lado.

- Então é assim que você pensa? Um pecado justificado deixa de ser pecado?

O jogo de palavras a encurralava, diante daquele rapaz, cada frase dita poderia ser manipulada e voltava como uma lança ameaçando seus conceitos e confundindo seu próprio pensamento

- Não exatamente- Bianca procurava palavras para defender seu irmão, mas cada vez que dizia um argumento ele refutava a ideia com um outro argumento ainda mais forte

- Bianca, você confia nele, conta tudo para ele, e ele em troca age na covardia te escondendo coisas que para você são importantes, e o pior é que ele sabe disso. Bia...
Você não é para ele o que ele é para você

- Se eu estiver errado me corrija, mas é isso que eu vejo- ele fez uma breve pausa e continuou com uma voz mais branda- é assim que é!

- . . . Vendo dessa forma . . .

- Então me diga... por que continuar a lado de alguém que não te respeita e nem tem consideração por sua pessoa? Alguém que não te dá valor?!

Bianca não concordava com essa ultima frase, Alexander havia se sacrificado bastante por ela, juntos tinham superado uma barra muito pesada, uma perda muito dolorosa, ele tinha lhe dado apoio no momento em que mais precisou, ele sempre esteve ao seu lado. E como se adivinhasse os pensamentos da menina o inccubus continuou

- Ele te protege, ele te acompanha, mas isso não passa da obrigação dele.
O pensamento de Bianca se quebrou diante da afirmação, ele parecia ler seu pensamento e ter uma resposta, um contraponto para cada ideia que ela tinha


- Ele está apenas retribuindo parte do que você fez por ele. Por que até onde eu sei, ele te deu força da mesma forma que você deu força a ele, ele foi seu apoio como você foi o dele, ele não fez nada por você a mais que apenas retribuir uma pequena parte do sacrifício que você fez por ele.
Agora eu quero que você analise tudo o que eu te disse e me responda, eu estou errado? Se eu estiver ficaria grato se você me explicasse, porque eu sozinho não consigo enxergar diferente
.

- Eu... eu não... eu não sei...

Sua mente estava confusa, as palavras dele faziam todo o sentido mas ela não queria aceitá-las, ao mesmo tempo que a simples presença dele lhe confundia a razão, uma presença embriagante que chegava até mesmo a sufocar o ser de quem o acompanhava. Durante o caminho que fizeram ela siquer notou por onde passavam, como se sua atenção se prendesse a cada ato, gesto e palavra dele.
Como se mais nada existisse, apenas os dois e a conversa que estavam tendo.
Notando a confusão da querubim, o rapaz a abraçou.

- Tenha calma, você não está tendo que tomar decisão alguma, eu estou apenas lhe mostrando os fatos- Disse docemente.

O abraço que a principio passava um consolo ficou mais forte, as mãos deslizaram pelo corpo da menina como se acariciassem um fino tecido. Bianca fez menção de afastar-se, mas antes ele sussurrou em seu ouvido
- Fique um pouco mais
Ela ficou imóvel.

Seu coração estava acelerado, tinha que se concentrar para não alterar a respiração e não demonstrar seu nervosismo diante daquele rapaz que parecia dominar muito bem tanto as palavras quanto sua influência sobre as pessoas. Ao mesmo tempo, tinha um pouco de raiva de si, pois mesmo sabendo que ele estava apenas manipulando emoções e palavras, ela não conseguiu não se influenciar
Mesmo sabendo que era um veneno, ela acabou sorvendo a essência daquele ser.

Ele a abraçou forte fazendo com que os dois corpos se tocassem por inteiro. Com uma das mãos ele afastou o cabelo de Bianca do pescoço e aspirou o perfume. Uma respiração profunda que fez a pele da menina arrepiar...

Um arrepio de corpo inteiro
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VI - Falando com estranhos [part 1]

I - Primeira impressão
Eu estava sentada a varanda de casa, estudando como sempre, quando o vi pela primeira vez. Os cabelos negros, que de tão negros tornavam-se azulados, a pele alva a postura de um sedutor. Ele estava lá, sentado num banco na pracinha em frente a casa em que morávamos.
Não consegui me concentrar em mais nada. A beleza sobrenatural daquele ser me fascinava, me prendia àquele estado de transe onde eu só conseguia vê-lo. E quando nossos olhos se cruzaram eu estremeci. Um olhar que de tão profundo invadia e tomava-se a alma. Ele sorriu, fez um aceno com a cabeça. Eu não retribui e entrei quase correndo no meu quarto.

Quando o Alex chegou eu contei do estranho da praça. Ele me mandou ter cuidado e disse que haviam vária criaturas sobrenaturais na cidade.
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II- 1° Encontro

No dia seguinte, acordamos muito cedo porque meu irmão teve que sair às 5:30 numa uma missão especial. Saí para passear um pouco, sentir os primeiros raios do sol, ver qualquer coisa que me distraísse, que me desviasse a atenção da lembrança daquele homem.
Queria me afastar daquela praça, então andei pela cidade, uma cidade que começava a despertar. Cheguei a um parquinho, deitei-me na grama e comecei a admirar o céu. Não se ouvia nada além do cantar dos pássaros, sentia o vento suave a tocar minha pele, o sol que aquecia lentamente, o frio da grama.
Tudo numa harmonia que acalmava a alma, até que eu senti uma presença.

Vindo em minha direção...

- Bom dia...- Disse ele extremamente cortês

Eu queria sair daquele lugar, algo dentro de mim gritava: Perigo!. Mas eu não conseguia, ao mesmo tempo que tinha curiosidade de conhecer mais sobre aquela pessoa que tinha me roubado a atenção e desconcentrado os meu sentimentos.
Eu me sentei imediatamente, ele no entanto, aproximou-se e deitou-se a meu lado.

- O céu... realmente é uma coisa bonita não acha? -permaneci calada apenas o observando. Porém os olhos que antes cortejavam o céu passaram a me fitar de uma forma tão intensa que eu não consegui encara-lo - E produz coisas muito bonitas também.... Diga-me, o que uma dama tão bela faz tão longe de casa?

- E você sabe onde eu moro?- disse surpresa, nunca imaginaria que ele iria lembrar da menina que fugiu e correu para o quarto por não ter uma reação.

- Um rostinho como o seu não se esquece, além do que, você me é familiar... Posso saber seu nome?

- Me desculpe - Eu precisava sair da sua presença- mas, já está na minha hora- Disse levantando-me, porém no momento em que me curvei me apoiando no chão para levantar-me... o meu cordão apareceu pelo decote da blusa



- Então seu nome é Bianca?! Não acha perigoso ter o nome atado ao pescoço onde todos podem identifica-la?

- Como?

- Seu cordão- Disse levantando-se e batendo a areia da roupa

- O que você quer comigo?- Já de pé

- Sua companhia, estou um pouco cansado de estar rodeado do mesmo tipo de gente.

- Acha mesmo que eu vou acreditar nisso?

- Não, mas não custava tentar- disse sorrindo, um sorriso tão encantado que por um momento eu quis permanecer ali, apenas o admirando.

E depois do sorriso seus olhos ficaram profundos que eu me senti absorvida por aquele olhar, pelo som daquela voz
- A verdade é que eu queria conhecer e entender- Ele pegou minha mão e curvou-se para beija-la- O porquê de você ter chamado tanto a minha atenção
Meu coração disparou ao simples toque de sua mão.

- Você sabe o meu nome, mas eu não sei o seu. Acho que algo não está correto

- É melhor que você não saiba, nem o meu nome e nem o que eu sou.

- É melhor que eu fique longe de você- Tirando a mão da mão dele

- Seu irmão sabe que você me viu?

- Mas é claro, porque eu esconderia algo dele?- tomando a dúvida quase como uma ofensa.

- Porque ele esconde de você- Calmamente, com as mãos nos bolsosele vira-se e começa a andar na direção contraria à minha

- O que ele esconde de mim? - Eu apressei o passo e fique a sua frente

- Informações. - Respondeu-me sem perder a postura- Tudo o que ele já descobriu sobre o ser que... sobre o autor do ataque à sua casa.

Eu perdi as palavras. Tinha quase certeza que Alexander descobrira coisas e se recusava a me contar. Mas eram apenas suposições. Suposições que se confirma-se verdade pela boca de um estranho.

- Você tem um semblante tão puro e sereno...

Minha linha de raciocínio foi quebrada quando senti o toque de sua mão em meu rosto, era estranha a fascinação que ele causava em mim... Algo mágico e encantador que me desnorteava. Algo sem explicação que por mais que eu tente descrever eu não consigo.

- Eu poderia lhe mostrar o mundo,- Ele continuou


- Se você viesse comigo, eu abriria os teus olhos
e você veria muito além das brancas nuvens do céu.

Por um minuto não se disse nada, apenas os olhos se comunicavam numa linguagem indecifrável.
Então, quebrando o silêncio, eu me atrevi a perguntar
- O que você sabe sobre aquela pessoa?

- Eu sei o que ele quer que você saiba... - Pessoas começaram a cruzar o parquinho, o sol estava se levantando e a cidade já estava desperta

- Sabe Bianca, aqui não é o local adequado para conversarmos sobre isso. Me encontre em uma hora na praça perto da sua casa.

- E o que te faz pensar que eu vou?

- Eu conheço as pessoas. Você é curiosa, quer descobrir o que seu irmão esconde, além de que... você quer me encontrar novamente- Ele passa a mão pela minha cintura, me aproxima quase num abraço e sussurra em meu ouvido

- Você quer descobrir o mundo... só não tem coragem de levantar voo, eu vejo isso nos seus olhos...


A voz embriagante daquele ser ao pé do ouvido fazia a pele arrepiar. Uma voz cortez e ao mesmo tempo maliciosa, as palavras medidas para não falar nem mais nem menos que o que se era preciso dizer, uma aura extrema de sedução, tudo formava um quadro digno de um feitiço.
Um feitiço lúdico que lhe arrebatava da realidade, e você se tornava uma peça quase que voluntária nesse jogo de cartas marcadas.
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III- S.O.S.
- Alex
- Alô, oi Bianca, aconteceu alguma coisa? Você está bem?
- Estou sim Al/
- Que bom, desculpe mas eu estou... meio ocupado agora, não posso demorar muito na ligação. Mas se acontecer alguma coisa, se precisar de mim é só ligar.
- 'Tá... Bom...
- Até a noite, minha linda, tenha cuidado.
- Você também...

Jesus e agora? O que é que eu faço?...
Bom, ele não pode dizer que eu não tentei avisar...
Ir ou não ir... eis a questão...
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Continua...

Um nome...

- Cheguei . . . - Colocando a pasta e as chaves sobre a mesinha da sala.

- Amooooooooor ...

- Você com esse avental até parece aquelas Amélias que cozinham bem- Rindo

- Minha comida é ruim?


- Eu não disse isso.- Beija ela na testa- O que é que tem pra janta hoje? - Tirando o terno

- Vem cá, a janta hoje está deliciosa...- Puxando Alexander para cozinha - Senta... - Empurra ele na cadeira e coloca um prato de sopa na frente dele - Come!

- O que é isso? - Olhando o caldo pastoso com pedaços pequenos de algo branco que ele não pôde identificar- Eu estava com tanta vontade de comer pizza hoje... O que você acha?

- Ooooo... Mas eu fiz com tanto trabalho

- Eu imagino... - Tentando decifrar do que era a "sopa" - O que você pôs aqui dentro?

- Ah, isso aí é ovo. É que... como eu mexi desmanchou. - Sentada na frente dele, debruçada sobre a mesa, esperando ele provar a comida. - Tem carne moída, frango desfiado e umas coisas que eu encontrei na geladeira.

- Como assim "umas coisas"?

- Para de reclamar e come logo. Está gostosa, um pouco feia, mas está gostosa.- Bianca toma a colher de Alex que estava encarando a sopa como se fosse um mistério
- Vai, come um pouco... Abre a boquinha aaaaaaaaa

- Já sei! Vá se trocar que a gente vai jantar num lugar diferente hoje!

- Tudo isso é só para não comer? - Comendo a sopa do prato dele - Você nem provou... Tá gostoso...

- Eu não duvido disso. Se você quiser, quando a gente chegar eu como a sopa toda, mas queria aproveitar a comida local, já que vamos nos mudar em breve.- Levantando-se

- Vamos nos mudar?

- Vamos...

- Então você encontrou mais pistas sobre ele?

- Sobre quem? - Abrindo a geladeira

- Eu seu que você está caçando ele... E se vai se mudar é porque encontrou informações relevantes. Um caçador só muda sua posição em duas ocasiões: Quando encontra um posicionamento melhor para atacar ou para melhorar seu campo de visão sobre a presa.


- E quando foi que você se tornou uma caçadora para conhecer essas estratégias de combate?

- Você não vai conseguir desviar o assunto...- Olhando séria para o captare

- Eu trabalho também, sabia?- Com um sorriso no rosto - Não posso simplesmente ter sido transferido?- Pega uma garrafa de suco e um copo.

- Você não vai me contar?- Ainda debruçada sobre a mesa

- Bianca... Já conversamos sobre isso antes...- Adquirindo uma expressão séria no rosto...

- Até quando você vai continuar me escondendo essas coisas?

- Eu não quero você envolvida nisso

- Hahaha, agora pronto... Eu não acredito que ouvi isso...


- Bianca, de que adianta você saber...

- Então você acha que me deixar alheia a tudo vai me proteger? Me por numa bolha?

- É mais fácil para eu te proteger com você dentro de uma bolha, que correndo atrás da morte

- Mas você vai correr atrás dele

- Eu sei me defender

- Então você quer dizer que eu não sei?

- Bia, você é uma querubim, nasceu para ajudar as pessoas, para curar, não para sair por aí caçando demônios

- Ah, agora eu entendi... – falando calmamente – Então eu sou uma boneca de porcelana extremamente frágil e incapaz de se defender... é isso ...

- Eu só quero te proteger... Por que você não entende?- Começando a se alterar

- Até quando você vai me tratar como uma criança?

- MAS VOCÊ É UMA CRIANCA... Por que você é tão... tão ... teimosa?

- EU NÃO SOU MAIS UMA CRIANÇA... Quando é que você vai enxergar isso?

- VOCÊ É!

- EU NÃO SOU!
- Não é o que eu estou vendo. Qualquer pessoa diria que você tem uns 14 anos, e para mim, 14 anos ainda é uma criança

- Pra você eu não mudei nada, não é... - Disse calmamente apoiando-se na mesa

- Bianca... – Se aproxima e a abraça – Você sabe que eu te amo... te amo demais para permitir que algo aconteça a você. E já perdi muito, não quero perder mais ninguém.

- Você não vai mesmo me contar nada? Nem o nome do demônio?

- Bianca... – respira fundo e olha no fundo dos olhos da menina - Você não vê que eu quero apenas te proteger?!

- Me desculpe, mas, eu não entendo, não aceito e não concordo com esse tipo de proteção – Solta-se dos braços dele e corre para o quarto. Lá chegando, fecha a porta e liga o som. A passos lentos, Alexander vai ao quarto da garota.

- Bianca... Bianca... abre essa porta...- Batendo na porta e girando a maçaneta - Eu não agüento isso – Fala para si mesmo enquanto apoiava a cabeça na porta...

- Bianca... abre essa porta e para de chorar... Não precisa disso. E não adianta você aumentar o volume do som para eu não ouvir porque eu sei que você está chorando... – O captare aguarda, mas não ouve nenhuma resposta do outro lado da porta

– Bianca... fala comigo... – Já parara de bater - Bianca... Você vai ficar assim até quando? Esse é o comportamento de alguém que não é uma criança? É assim que você quer que eu veja que você mudou? Fazendo birra?
...

Alexander senta-se encostado na porta, estava cansado físico e emocionalmente.

- Vamos fazer uma troca, você abre a porta do quarto e eu te digo o nome do demônio e o qual a classe dele... Estamos de acordo?

Alexander ouve a tranca da porta se abrindo, calada, abraçada num travesseiro e com o rosto vermelho ainda húmido pelas lágrimas Bianca se senta no chão ao lado do captare.

- O nome dele é Kaveira. Ele é um daemon... Satisfeita agora?

- Viu, não foi tão dificíl assim, foi ? Não perdeu nenhum pedaço... - Deitando nos braços dele.

- Você me dá muito trabalho...

- É você quem complica as coisas...

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