V - Recordações. Uma perda terrível


Vi uma foto hoje, eu e Beatriz no jardim. Ela segurava uma florzinha e eu a olhava. Hoje em dia as coisas são muito diferentes. Quem segura as flores sou eu. Flores para por no túmulo da minha irmã...
Um túmulo sem corpo... Só as cinzas restaram daquele dia

Resultado do ataque...
Resultado das chamas...

Lembro como se fosse hoje e só de lembrar as lágrimas tornam a rolar pela minha face.
Tranco-me no quarto para que Alex não perceba, não perceba que mesmo depois de tantos anos eu ainda não parei de chorar.

Como passos ensaiados de uma música que toca todas as noites. Eu me tranco no meu quarto, aumento o volume da música e choro. Calada, quieta, para ninguém escutar.
Tento me distrair, crio um floco de luz e começo a brincar com ele. A luz me dá confiança. A luz me salvou.
E já dizia o senhor:
E viu Deus que a luz era boa, e fez separação entre a luz e as trevas.
Até o criador comprovou que a luz é boa...

Me questiono sobre como as coisas poderia ser diferentes. O que eu poderia ter feito para evitar. Mas sempre chego a mesma conclusão: Eu fui incapaz. Se eu fosse mais ativa, mais esforçada naquele dia o meu beijo a teria curado, eu não precisaria ter saído da casa, ela não teria ficado sozinha, meus pais não teriam ido atrás de vingança e ainda estariam vivos.
Todos estariam vivos.

Eu preferiria ter morrido ao lado dela a viver com essa culpa sobre mim.

Talvez seja hipocrisia minha, covardia ou seja lá o que for. Mas essa dor é insuportável e o peso de três mortes é forte demais. O fardo é pesado demais... Saber que seus pais e sua irmã não estão mais ao seu lado por culpa sua...
Única e exclusivamente sua.

Tudo o que me restou foi o Alex.
Ele é a única razão pela qual eu ainda não cometi um desatino. Tudo o que ainda me faz existir.
A pessoa que me segurou quando chegamos diante da casa em chamas. Que impediu que eu entrasse naquela casa prestes a desabar. A pessoa que me segura até hoje.
Me segura nessa vida para que eu não escape dela num bater de asas.

Torno a olhar a foto, éramos bebês ainda, as duas de vestido azul... gêmeas idênticas. Sempre fomos idênticas. Exceto na personalidade. Beatriz sempre foi mais ativa, mas ligada ao prático. Eu já era e sou mais ligada ao emocional, ao espiritual. Nos completávamos como as duas metades da mesma coisa.
...De uma única coisa...
...De um único ser...

Como costumávamos falar: Éramos partes de uma única alma que se partira em duas. Não vejo sentido em continuar a viver em parte. E realmente me desapeguei a vida. Se eu não tivesse mais ninguém, ou se eu soubesse que ele continuaria bem sem mim, eu já teria acabado com essa minha agonia.
Mas eu não posso fazer isso. Não posso tirar dele a única coisa que ainda lhe restou. Ele já foi machucado demais, não posso permitir que continue a ser, principalmente po culpa minha.

Então eu me distraio.Penso em qualquer coisa que possa me fazer sorrir. Eu literalmente tento esquecer. Porque se assim não for, o peso da culpa de derrota, me joga ao chão e me impede de caminhar.
E não é isso que eu quero, eu quero continuar de pé. Eu quero ser forte. Para que ele possa se apoiar em mim. Para que eu possa retribuir tudo o que ele significa para mim...
Um motivo para continuar vivo.

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