À Deus. Sino de Adriel e Alice - Parte2

Um céu em um eterno amanhecer... Um arboreto verdejante... viçoso... um mar de verde nas mais variadas tonalidade, árvores das mais distintas espécies. Um jardim que se estendia contornando os muros da construção. Alados pousando em um rito quase magistral.

Ecoando pelo vale , uma orquestra de sinos convidando e convocando todos os presentes a se reunirem na Casa dos Angellin's.

O castelo, chamado simplesmente de "grande casa" seguia os padrões renascentistas. Cheio de cupulas, corredores, pilares e jardins. Grandes janelas se erguiam até próximo ao teto.Vitrais dos mais diversos mosaicos dava a alguns ambientes uma iluminação viva. Para esta ocasião, fitas vermelhas fixadas as paredes e aves fênix compunham a decoração.

Alexander usava uma blusa branca coberta por um casaco de cor castanha. Seus avós usavam trajes com tons sóbrios de marrons. Bianca vestia um vestido branco cheio de véus e fitas em tons de lilazes e rosa, nas mesmas cores que as flores que ornamentavam sua espada e seu cabelo. Eden havia lhe providenciado uma coroa de flores que deixavam a querubim parecendo uma fada.

Os dois filhos de Adriel e Alice ficaram em um aposento até o inicio da cerimonia. O silencio era quebrado apenas quando o captare explicava algum passo à irmã.

Ate que se ouviu ecoar
A primeira badalada.

A porta então é aberta por Alariel, radiante como a própria expressão da beleza divina. Alexander se põe de pé e a querubim imita o gesto. A orare os toma pelas mãos e começa a conduzi-los pelos corredores. Logo atrás, Malquiel, Eden Raphael e Gabrielle seguem em silêncio, acompanhados pelos murmurinhos dos familiares.

Caminhando até um salão onde pilares convergiam em uma cupula, que num mosaico de cores formava um ceu estrelado. Pelas janelas, que se esgueiravam de pouco acima do chão até a base da cupula, via-se uma escadaria de pedras brutas contraposta a um arboreto das mais variadas espécies. Os anjos haviam entrado e formado um semi-circulo, Alexander, Alariel e Bianca estavam no centro da sala. Diante dos três, a bancada se reúne mais uma vez.

Baltazar, o Juiz, levanta-se os murmurinhos cessam e ele toma a palavra:
Estamos aqui hoje... reunidos diante da gloria divina para prestar uma homenagem a dois entes tão queridos e tão respeitados. Adriel e Alice eram dotados de uma garra, uma paixão pela vida de maneira tão intensa como eu pouco vira.

Agora eles já não estão mais entre nós, juntaram-se ao grande amor divino, ao lado dos grandes guerreiros descansando de sua jornada. Se bem conheço aquele que era meu neto, ele deve estar nesse momento olhando para nós e dizendo com um largo sorriso no rosto "Não entendo o porquê de tanta tristeza, eu ainda estou com vocês" e essa é uma grande verdade. Eles vivem em cada memoria nossa, em cada lembrança que temos. Então, não vamos aprisiona-los a uma vida de momentos triste e lacrimosos, não vamos aprisioná-los a uma vida de morte. Daremos uma vida de festas e sorrisos, de glorias e brincadeiras dos momentos que rimos a seu lado. Uma existencia viva, coma a vida que eles construíram.

Se minha neta estivesse aqui ela certamente diria que não se arrepende dos passos que deu, das escolha que fez... Alice não era anjo de lamentar. Ela fazia suas escolhas e via as consequencias como fruto do que plantava mas reconhecia também nem tudo estava por sua conta, sobre seu controle. As vezes uma tempestade chega fora de hora e coloca toda uma boa colheita a perder.
Quando isso acontecia ela levantava a cabeça e sorrido para o ceu dizia: "Deus, eu estou com você".

Alice era dotada de uma admirável, ela sentia o puro amor de Deus que cobre todas as coisas com seu manto de bondade. Um amor tão grande que procura dar consolo e bons resultados até mesmo a atos de maldade que nos atinge.

Bianca abaixou a cabeça e começou a chorar, silenciosamente, sendo acompanhada pelas palavras e alentos de sua mãe que pareiam vivos em sua mente. Alariel a envolveu em um meio abraço, Alexander soltou a mão da orare e foi à querubim, a abraçou forte, um abraço confiante na esperança de que tudo se seguiria bem.

Gabrielle respirou fundo e foi juntar-se ao abraço seguida por Raphael... Eden, Malquiel... Pouco a pouco uma multidão de abraços e palavras de apoio e força se formou. Brandava-se ao vento as façanhas e artimanhas de Adriel, os feitos de Alice. Até mesmo Alariel citava alguns fatos que chegara a presenciar. Todos falavam das bricadeiras, da alegria. Das historias miraculosas que Adriel narrava para os mais jovens... Dos métodos nada convencionais que Alice tinha de ensinar.

E foi nesse burburinho de memorias que tocou a segunda badalada...

Abriram-se as portas do salão dando passagem ao Arboretum. Em meio ao mar de folhagens um carvalho estava destacado. Quatro lanças douradas estavam dispostas em torno da arvore. Quatro fitas vermelhas se erguiam de suas pontas até o topo do carvalho. Havia uma outra fita vermelha a base da árvore, tão cerrada ao tronco que parecia fazer parte dele. O nome do casal reluzia em um dourado forte gravado no tecido carmesim.

Malquiel abraçou forte sua esposa, Raphael apontava a Gabrielle a árvore dos dois. Lentamente os casais se juntavam, esse era o momento em que todos pensavam na possibilidade de perder seu laço. E como era bom ainda tê-lo a seu lado. Aqueles que não os tinham, dispersavam e aproveitavam para visitar seus próprios troncos cerrados. Outros derramavam lagrimas silenciosas, molhadas na memoria dos que já não estavam mais entre eles.
- Que o primogenito empunhe o machado...

A lamina do machado tinha tres vezes o tamanho normal embora seu peso não excedesse o peso de um machado comum, cravejado com pedras das mais diferentes cores desde a lâmina até o cabo.
-Não se preocupe, você vai saber manuzeá-lo - Sussurrou Baltazar

O captare não estava preocupado com isso, na realidade seu olhos vasculhavam a procura de uma pequena querubim. Acalmou-se ao vela sendo distraída por Alariel que lhe apontava as borboletas de seu jardim.

Ao quinto golpe do machado o antigo carvalho começou a tombar, as fitas presas às lanças começam a ceder e lentamente deitando o tronco no chão como quem dorme para o sono eterno.

E os sinos tocaram a terceira badalada

Alariel retorna com Bianca ao encontro dos demais. Alexander recebe em suas mão a lança que pertencera a seu pai. Bianca recebeu uma caixa onde reluziam os cordões dois caçadores: A muçurana e o lobo-guará.

Caminharam até um outro local, um campinário com alguma construções. Nada maior que um comodo. Um memorial com pinturas, fotos, roupas, tudo o que o casal gostava. Na parede contraposta a porta uma pintura em tamanho real. Alice com seu sorriso aconchegante e aldacioso, Adriel com sua gargalhada tipica e seu jeitão de menino. Ambos com os trajes do casamento.
- "Uma eterna lua-de-mel" como ele costumava dizer- Soltou Gabrielle quebrando o silencio.
- Acho que não haveria forma melhor de retratá-los
- E não há forma melhor de retratar um Angellin, meu amigo Raphael. Satisfeito, com seu laço em seus braços.
- Pensei que você iria querer ser retratado matando um dragão, meu marido. - Embora brincasse, a idéia de ter de retratar Malquiel em uma pintura como aquela chegava a apertar o peito.
Malquiel deu um largo sorriso como o de Adriel e abraçou sua esposa pela cintura
- Se você estiver a meu lado enquanto eu matar o dragão...

Alexander colocou a lança no suporte ao lado da pintura e respirou fundo enquanto tocava o rosto dos pais. Quase podia senti-los. Uma angustia mesclada com revolta lhe tomava o peito. A esperança de que eles estivessem melhor agora não servia de consolo, não diminuia o vazio, o silencio na casa, nem ocupava os lugares à mesa. Se Deus era mesmo tão justo, onde foi parar sua justiça...
- Al... esles estão mesmo com Deus agora?
- Sim...
- Que bom... pelo menos agora eles não vão mais precisar fugir. O sangue e toda a guerra para eles acabou...

O captare a braçou forte, e afastou as ideias da cabeça, ainda tinha que ser grato a Deus pelo presente em seus braços.

A orquestra de sinos soou mais uma vez. Como um requiem espalhando suas considerações pelo ar, correndo pelos vales, subindo até a infinita cupula celeste...
Para que onde quer estivessem...
Os homenageados pudessem ouvir...

- Isso tudo para nós...
- Sim, uma bela cerimônia, não concorda?!
- A princesinha estava linda
- Achei o filhote meio sério, mas gostei da musica
- Não sei... Acho muito triste, prefiro as mais alegres...
- Adriel...
- Diga meu amor
- Será que eles vão conseguir seguir em frente?
- Acho que vão... Com algumas dificuldades, eles tem potencial para conseguir, além disso, nós vamos estar olhando por eles.
- Sem duvida...
- Até porque o projetil de anjo ainda é um projetil, eu ainda tenho que ajustar muita coisa, ele ainda tem muita coisa a aprender.
-Adriel!
- Ô amorzinho... esquece isso um pouco, vem cá para eu te dar um beijinho...
- Você não tem jeito
- E preciso?! Vem cá, vem...
- Adriel! Aqui não...
- Então vem... vamos... para um outro lugar...

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