II - Mãe maga de trevas + Infância conturbada = Fobia a trevas

Lembranças como essa eu tenho várias. Memórias de eu ainda pequena, numa época em que ninguém estava morto. Talvez após ler uma dessas lembranças você possa me entender um pouco melhor. Talvez você entenda que para tudo existe uma justificativa, até mesmo, para um infantil...
"Medo do escuro".

- Papai, mamãe e Alexander vão treinar lá fora viu, nós não vamos para longe. Se alguém falar, finjam que a casa está vazia, não respondam. Nada de barulhos. Mas se alguém entrar ou forçar a entrada gritem.Minhas princesas, gritem o mais alto que conseguirem. - Dizia Adriel gurando as mãos de suas filhas que estaam lado a lado.
Essas sempre foram as normas da casa. Sempre que iam sair, um deles repetia sempre as mesmas instruções. Uma vida tendo que fingir que não existe.

- Vamos, Adriel, o filhote já está lá fora- Disse nossa mãe da porta.

- Estou indo,- Respondeu auto o suficiente para que ela o ouvisse, depois voltando-se a nós duas- cadê o beijo do papai...- Sempre muito carinhoso no pouco tempo que passavam conosco.

E assim eles saíram como de costume. Eu e Beatriz ficamos brincando na cozinha. Algum tempo depois Alexander entrou pelas portas dos fundos.

- Esqueceu alguma coisa, maninho?- Disse Beatriz ao vê-lo

- Me mandaram aqui para levar vocês, parece que a mãe e o pai querem mostrar algo. Vamos?!- Dizendo isso ele estendeu as mãos para nós duas. Beatriz segurou numa delas e eu me levantei sozinha.

- Vou pegar uma coisa antes.

- Rápido Beatriz, eles estão com pressa. Depois você pega.

- O que aconteceu Alzinho? Está confundindo nós duas agora, é?!...- Brincou Beatriz rindo. Confundir nós duas era uma coisa que Alexander nunca fazia.

- Você ... não é o Alex-Falei com uma firmeza que na verdade eu não tinha. Beatriz ficou séria

- Que isso, menina, é claro que eu sou.

- Não...-Aquele não era o jeito de falar dele, eu tinha certeza- não é ... ALEX- Comecei a correr em direção a porta da frente- AAALEEX!- gritava com todas as forças dos meus pulmões.

Beatriz e o suposto Alex corriam atrás de mim. Quando cheguei a sala vi a porta abrir...

- O que foi, Bia?- Eu continuei a correr e o abracei- Aconteceu alguma co...- Ele não terminou a frase.
Se calou ao ver alcançando a sala Beatriz e o seu "clone". Ao me ver Abraçada com o Alex Beatriz correu imediatamente antes que o outro a pegasse.

O Clone sorriu.

- Vamos ver quem é o mais rápido?! - disse
Entraram, quebrando as janelas de vidro, criaturas de preto que estava em cima do telhado. Suas vestes lembravam as de ninjas.

- O que vocês querem aqui?- Me assustei ao ouvir a voz do meu pai surgindo atrás de Alexander. Nossa mãe se abaixou até nós e nos abraçou.
Não houve resposta da parte dos invasores.
Eles apenas investiram contra nós.

- ALEXANDER - Gritou nossa mãe enquanto afastava os seres, que se moviam como sombras, que se aproximavam de nós - PROTEJA AS MENINAS! ... Nós cuidaremos do resto.


E assim uma luta se iniciou em frente aos nossos olhos. Alexander nos afastou um pouco da sala mas não nos movemos muito. Eu e Beatriz começamos a chorar e a gritar, é normal que crianças tenham medo. A morte nos assustava. Até que ouvimos o grito de nosso pai, como todas as outras vezes em que isso acontecia ele gritava...
- ALICE, A LUZ- já sabíamos o que isso significava. Já entendíamos o que estaria por vir.

Escuridão

E todo o local enegrecia do modo que não podíamos enxergar mais nada. Uma escuridão tão densa que parecia exercer um peso sobre nossos corpos. Apenas ouvíamos os grunhidos de dor, o titilar do metal.Ficavamos em algum canto da sala acuadas com Alexander a nossa frente afastando os que se aproximavam de nós, mas não impedia que as mãos, as vezes ensanguentadas, nos agarrasse, procurando uma forma de nos raptar daquele lugar.

Um pesadelo

E quando tudo terminava, a luz tornava ao lugar, víamos a casa repleta de corpos, e as paredes tintas de sangue.
(Alice)

Depois, nos mudávamos de casa, de cidade, de estado. Mas as cenas se repetiam. A escuridão sempre tornava... Com monstros que queriam nos pegar.

Eu tornava a ouvir os gritos abafados e a sentir as mãos, as vezes gélidas ou molhadas pelo sangue, a me alcançar numa tentativa de me carregar para algum lugar desconhecido.

Essas cena se repetiram mais que uma, duas ou três vezes. Eu cresci assim. Entre tempos de paz e tempos de medo. Nos escondendo de sombras que sempre tornavam a nos encontrar e nos atacar. E com as sombras vinham as trevas e com as trevas vinha a dor...

O desespero

O medo

A apreensão

Uma rotina que marcou muito mais que a minha memória.
Uma rotina que marcou a cerne do meu ser

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