VIII - CompanhiaO sol já havia se escondido no horizonte, o azul iluminado do dia já havia sido substituído pelo pontilhado das estrelas no manto noturno. Bianca olhava ao redor procurando caminho mais rápido para voltar para casa. Não sabia exatamente onde estava, mas conhecia a cidade o suficiente par saber que estava longe.
Longe de casa, longe de Alexander,
... Acompanhada por um estranho, acompanhada por um demônio.
- Seu perfume... - Disse ele mudando bruscamente de assunto.- É bom, mas misturado ao seu cheiro fica melhor ainda.
- Er, obrigada
- E esses cabelos? Porque tão longos? - Falava enquanto caminhava pela rua deserta, iluminada pela luz amarelada das luminárias.
- E desde quando alguém como você se interessa por esse tipo de coisa?
- Tem razão -Disse passando a mão pela cintura dela e puxando-a para junto de si - Vamos pular essas preliminares e ir direto à parte divertida - Ele a olhou no fundos dos olhos, um sorriso meia-boca, um sorriso malicioso, porte de galante medieval. Uma presença arrebatadora.
Embriagante de uma forma que todo Don Juan ou Casanova desejaria ter. Mas ele era mais, muito mais. Cada gesto milimetricamente ensaiado como parte de uma pintura, uma cena de teatro projetada para seduzir e encantar.

Se perder em suas palavras e ser guiada de olhos fechados pelo caminho da perdição.
Sua simples presença abalava qualquer aversão
Não havia como se negar
Negligenciar essa forma de atração tão envolvente
que arrastava a consciência para longe
A preza se oferecia em sacrifício com tamanha satisfação
Hipnotizada, envolvida, embriagada nesse canto de sereia
que mesmo sabendo que a levaria a morte
era incapaz de se negar a ouvir
Antes disso, a presa implorava, desejava, ansiava por mais
e mais... e mais... e mais...
Desse veneno de serpente, mais letal que a própria morte.
- Ra ra ra, muito engraçado- Soltando-se facilmente dos braços dele, enquanto ele ria satisfeito.
- Mas por que isso? -Ainda rindo - Ta no inferno, abraça o diabo...
- Mas eu não estou no inferno...
- Então se você tivesse, você me abraçaria?!- Concluiu com o mesmo sorriso malicioso de antes
- Não, se eu tivesse, eu faria o possível para sair de lá.
- Se você estivesse comigo- O sorriso é substituindo por um olhar mais sedutor, e segurando suavemente o queixo dela ele continua- Eu iria fazer com que você não QUISESSE sair de lá.
- Você é muito auto-confiante - Tirando o rosto da mão dele
- Eu apenas tenho total consciência das minhas capacidades- Rindo descontraidamente outra vez.
- Eu não consigo entender...
- O quê? - Se aproximando
- Você, isso tudo... Não faz sentido algum para mim.
- Bom... - Respira fundo - Acho que não tem problema e como eu quero fazer uma relação com base em confiança, eu não vou fazer como aquele espantalho e mentir ou esconder as coisas de você.
- Espantalho?
- É, fica marcando presença, botando medo, mas não faze coisa alguma. Bem, voltando ao assunto, deixe-me aliviar as dúvidas de sua mente. Se você tivesse que ascender uma fogueira, o que você usaria? Galhos secos ou sementes?
- Depende. Se eu precisasse de uma fogueira imediatamente eu usaria os galhos. Mas se eu pudesse esperar, eu plantaria as sementes e assim teria muito mais lenha.
- É exatamente esse o raciocínio. Eu não preciso da fogueira para agora. Muito embora você já confie em mim.
- Quem te disse que eu confio em você?- Respondeu automaticamente
- Não confia? Você está sozinha, altas horas da noite, com um demônio, longe da sua casa ou de qualquer outro tipo de proteção. - Ele fez uma pequena pausa para que ela tomasse consciência do que ele falava. A garganta de Bianca ficou seca, a saliva desceu como um nó. Ela estremeceu inconscientemente e começou a fazer suas promessas mentalmente
- Eu não chamaria isso de confiança...- Ela própria se interrompeu, a continuação da frase era algo que não se cabia ser dito em voz alta "Eu chamaria isso de burrice ou suicídio"
- Realmente... eu gostaria que você fosse mais cuidadosa. Sua vida é muito preciosa para você coloca-la em risco com tanta facilidade. Os outros não são... digamos - Procurando a melhor forma de dizer- Eles não são como eu.
Bianca o observava sem expressão alguma na face. Ele continuou...
- Embora eu entenda que você só fez isso porque você tem um fraco por mim. Eu diria uma Química entre nós dois, é como a "lei da atração" na Física, embora eu prefira a 'dinâmica dos corpos'.
Mantendo a mesma expressão, ou falta da mesma, Bianca questionou
- Quem é você?
- O amor da sua vida... O sol do seu domingo nublado... O fogo da sua cama...
- Eu sou muito nova para isso
- Isso é só uma questão de tempo
- Desculpe desaponta-lo mas eu não vou crescer mais que isso
- Não vai?
- Frustrado?
- Na verdade um pouco, eu aprecio curvas - Desenhando os contornos femininos com as mãos- Mas você ainda tem a maioria dos pre-requisitos então... eu me acostumo
Bianca sorriu, olhou a hora no relógio. Era tarde, muito tarde.
- Eu tenho que voltar agora
- Não, não tem.
- Está tarde
- Fique mais um pouco, ele vai brigar de todo jeito, que diferença vai fazer uma horinha ou duas.
Bianca olhou o relógio mais uma vez e fez uma careta. A proposta realmente era tentadora, mas a querubim sabia que uma hora ou duas fazia toda a diferença. A distância entre a vida e a morte são apenas segundos.
Notando a hesitação da garota, o incubus continuou...
- Você poderia vir comigo... Abandonar essa vida de vingança e tragédia. Deixar todo o sofrimento para trás e simplesmente vir comigo.
- E tudo isso será meu? Todos os reinos da terra?
- Será que você poderia deixar essa rixinha de Anjos e demônios de lado nem que seja por um minuto?
- E esquecer que você é um demônio?
- Seria um bom começo...
- E isso é possível?
- Estou apenas lhe mostrando que você tem opções
- Me desculpe, mas me ensinaram a não confiar em demônios
- E por acaso eu pareço com alguma descrição de demônio que já te deram?
- Algumas
- Confesse... hoje foi um dos dias mais agradáveis que você já teve desde que chegou a essa cidade...
A querubim ficou calada
- Então porque você continua se negando a assumir que já cogitou várias vezes vir comigo? Que já argumentou e criticou várias vezes tudo o que já te ensinaram?
- Eu não posso confiar em alguém que eu não sei nem o nome...
- Você ainda não me disse seu nome
- Vamos fazer um acordo. Um beijo por um nome.
- Não é correto você usar de poderes para influênciar minhas vontades
- Mas eu não estou usando poder algum - A menina o encarou com um meio sorriso - Nenhum que te faça querer fazer o que você já não esteja pré-disposta a fazer.
Ouve silêncio no local. Bianca tentava diferenciar seus próprios pensamentos das idéias que surgiam em sua mente. Ele a segurando pela cintura. O celular tocou, ele atendeu automaticamente com a mão livre sem desviar o olhar do dela. Uma voz gritando do outro lado da linha quebrou toda a concentração.
- CADÊ VOCÊ, ANDRÉ?? ONDE DIABOS VOCÊ SE METEU??!!
- Você poderia falar mais baixo, Igor?
Ele afastou-se um pouco para que ela não escutasse o que era dito no outro lado da linha.
- Eu sei... eu já estou indo, acabei perdendo a hora. Eu estava procurando um lanche para viagem, mas a fome foi maior. Você sabe...OK, Resolva o que puder eu não vou demorar. Deixe que eu cuido disso.
- Está atrasado?
- É, parece que nosso encontro acabou por hoje. Eu tenho que ir resolver umas coisas com meu irmão.
- Irmão?
- Sim, um irmão mais novo. Por quê? Não posso ter um?
- Não é isso, eu apenas não imaginava...
- Eu sou uma boa alma. Só você não vê isso...

O taxi parou a um quarteirão da casa. O inccubus se despediu com um:
- Não seria saudável se ele te visse em casa acompanhada por um ... demônio - Disse rindo. A ultima palavra soou como um sussurro para que o Taxista não escutasse. - Se bem que seria interessante...
- Não, não seria...
- Tem certeza que não quer que eu vá te deixar na porta?
- Tenho sim.- Respondeu saindo rapidamente do carro - Adeus!
- Até breve... Adeus é para pessoas que nunca mais irão se ver...
Bianca correu o quarteirão sem olhar para trás. Queria que seu "Adeus" realmente durasse para sempre. Reencontrar um demônio não era algo pelo qual um anjo devesse esperar. E encontrar um demônio gentil, educado, persuasivo e galante era ainda mais perigoso que encontrar um demônio em fúria.
Só quando alcançou a porta de casa olhou em sua volta. Não havia mais sinal de carro algum. Enfiou a chave e entrou sem fazer barulho.
Quando estava fechando a porta, ouviu uma voz familiar, cansada, baixa mas firme...
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