Anjos
Primeiro um clarão, mas dessa vez o branco era menos intenso, havia silhuetas manchando a imagem que dançava entre tons pastel. O ar tinha um odor estranho, áspero parecia rasgar os pulmões. A barriga começava a reclamar a ausência de comida. A boca seca a procura de água. Os olhos ardiam se acostumando com o novo ambiente.
- Tem certeza que eu gostava daqui? -. Bianca estava abraçada com Alexander, a cabeça apoiada em suas costas e os braços cruzando o busto do rapaz.
- Você se acostuma.
Pararam próximo a um bebedouro onde Bianca encheu uns quatro copos de água e comera alguns pedaços de pão. Depois seguiram aos degraus do palácio Imperial. A base da Cidade de Prata em Londres.
Os carros passavam com uma velocidade surpreendente com as mais variadas cores e modelos. A fumaça se misturava a pequena neblina que havia no ar. Não estava chovendo, mas nuvens densas cobriam os céus e impediam que o sol tocasse nas folhagens de uma praça que havia em frente.
O barulho dos carros eram mais violentos que o canto dos pássaros que ouvira na primeira vez que acordara. Mendigos faziam fogueira nas calçadas. Um casal de namorados caminhava de mãos dadas aos sussurros. Pedintes, propagandas, uma barraquinha de lanche. Milhares de pessoas passavam umas pelas outras sem se olharem preocuparas demais com seus próprios problemas.
Aquela era a terra...
Aquele era mais um dia de trabalho...
As mãos esfregavam-se uma na outra a procura de calor, o couro da luva derrapava fazendo um barulho estranho. Virou o copo de café e deu, mas dois goles generosos. O liquido descia pela garganta acordando o corpo. Procurou nos bolsos do casaco um maço de cigarros. Tirou um deles e o examinou por um minuto. Um a mais não iria lhe matar...
Estava brigando com a chama do isqueiro quando seus olhos foram atraídos para outro lugar. Diferente de tudo o que já tinha vistos. O casal que saída do Palácio Imperial parecia irreal. Se acreditasse em anjos, certamente eles seriam daquela forma. A menina usava um vestido branco com a cintura marcada co pedras. O cabelo de um dourado iluminado ondulava até metade da coxa. Uma pele rosada, uma delicadeza em cada gesto capaz de causar inveja em qualquer flor. O rapaz a seu lado tinha os cabelos cor de avelã. Carregava a jovem a seu lado como se protegesse uma pedra preciosa. Tirou seu casaco e a cobriu em um meio abraço.
n.a. : Conversa paralela que o taxista não conseguiu escutar:
- Aja como um deles.- disse Alexander saindo da igreja. Bianca deu uma olhada em volta e pegando a atitude geral das pessoas concluiu.
- Eu tenho que ficar de boca aberta olhando para você, então?
- Bianca!!!
A boca entreaberta deixou o cigarro cair, o ar parecia faltar aos velhos pulmões a medida que o casal se aproximava de seu taxi. Jogou o isqueiro nervosamente no primeiro bolso que sua mão conseguiu encontrar e abriu a porta do carro. A jovem respondeu com um sorriso carinhoso. Um olhar sereno, de um azul cor de "céu-do-meio-dia". O rapaz entrou no taxi normalmente e deu o endereço de uma praça a alguns bairros de distancia.
Modelos, pensou. Pelo espelho retrovisor via a jovem com os olhos fixos na janela, atenta, curiosa, vez ou outra chamava o rapaz e apontava alguma coisa interessante que tinham visto na rua. Sua linguagem era semelhante a de alguma derivada do latim, embora suas feições se assemelhassem bastante às européias. Mas, ao mesmo tempo, de uma forma diferente. Talvez fossem filhos de algum milionário de outro pais...
O carro parou em frente a uma praça da zona sul de Londres. O rapaz agradeceu em um inglês britânico bem pronunciado e saiu. A jovem agradeceu com uma aceno e um sorriso. Não entendia muito bem mas sentia uma paz que emanava dos dois. Respirou fundo quando o casal já havia se distanciado alguns metros em meio as arvores, a respiração o fizera tossir, uma dor no velho e doente pulmão o fez perder o equilíbrio e precisar se apoiar no taxi. Abriu a porta e se sentou no banco. Procurou o maço de cigarros novamente nos bolsos do casaco enquanto olhava para o casal de jovens adentrando na praça. A inocência da garota o fez lembrar-se de seu filho quando ainda menino. Agora já rapaz feito preparava-se para receber os diplomas da faculdade. A emoção lhe roubou o fôlego, iria chegar a ver seu filho, como aquele rapaz, cruzar fronteiras e conhecer novos lugares? Ver seu filho casar... Ter netos...
O que estava fazendo da sua vida?!
A respiração difícil o irritava cada vez que pensava. Aquele cigarro realmente o estava matando... concordou consigo mesmo enquanto voltava para o carro. Talvez fosse hora de parar...
- Olhai... Como é que tá, loirinha?! Entra aí rapaz...
- Bom dia Spinew. Eriol está?
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