III - 3/8 - O começo do fim

Terça feira. 03 de Agosto de 1993.
- Vamos sair e Alexander virá conosco. Vamos trancar as portas. Se alguém falar, não respondam, finjam que a casa está vazia. Voltaremos mais tarde -

Essas foram as últimas palavras que Beatriz escutou de seu pai. Com um beijo na testa das crianças, eles se despediram e partiram deixando as duas meninas, que tinham na época 12 anos, sozinhas. Beatriz logo voltou aos seus estudos como de costume... queria impressionar sua mãe quando ela voltasse enquanto Bianca brincava com uma das espadas do pai.

Algum tempo depois Bianca ouviu um barulho vindo dos fundos, Beatriz concentrada não prestou atenção. Imaginando que pudesse ser seus pais que tinham voltado, a mais velha correu em direção à porta e recuou imediatamente ao ver a silhueta de três seres desconhecidos por entre as brechas das madeiras da parede.

Por sorte não fora notada. Procurou um lugar onde pudesse vê-los melhor sem ser vista. Não sabia distinguir o que eram; dois tinham uma aparência monstruosa meio deformada e o terceiro que aparentava ser uma pessoa normal usava uma máscara cobrindo-lhe a a metade da face.

- Os demoniozinhos estão dormindo na sala não é?!- Disse um deles baixo, mas o suficiente para que Bianca ouvisse, enquanto esperava o mascarado destrancar a porta.

- Se não estiverem não vai ser problema. São apenas crianças- Disse o mascarado encontrando uma grande resistência da fechadura.

- O que eles pensavam?! Que iriam esconder a existência delas de nós? ... hehe... Elas não vão ter chance - grunhiu o outro.

Bianca parecia paralisada pelo medo. Ao mesmo tempo em que procurava e não encontrava saída ou solução.
Elas estavam encurraladas.

- Nem chance, nem clemência ou piedade. Alguém deve parar pelos pecados daqueles infames.

Em um pico de adrenalina,Bianca correu para chamar Beatriz, elas tinham que sair da casa e se proteger em algum lugar, de algum modo... Elas tinham que conseguir...

- "Bi... Nossa cara é místicamente protegida, nada pode entrar. E não tem nada lá fora, deixe de ser assustada... "- Essa foi a resposta encontrada.

- Vamos, eu sei por onde escapar. São ... São monstros – Puxando a irmã na direção oposta

- Que brincadeira é essa, Bianca?! Você teve outro daqueles pesadelos?... Venha sente-se aqui, se acalme e pare de me puxar.- Bianca soltou sua irmã e foi em direção a uma janela que ficava próximo.
Precisava encontrar uma saída...

- Pronto. Se tem algo lá eu mesma vou verificar. Eu não sou surda pra não ter percebido ninguém chegando- resmungando

Beatriz saiu em direção à porta, no caminho, um dos invasores deformado tentou capturá-la, mas a menina foi mais rápida e correu em direção à sala onde estava a irmã.

Esse foi o começo do fim.

O Mascarado ficou a porta - Terminem logo com isso, eu tenho pressa -

- E como você vai querê-las, chefe, mortas, vivas ou nenhum dos dois?

- O que você acha? - Encerrou com um leve sorriso- Não me obriguem a fazer isso eu mesmo, seus incopetentes - se afastando um pouco da casa.

As meninas resistiram o máximo que puderam, Bianca tinha uma pequena vantagem de distancia em relação a seu agressor, procurava se defender com quanquer coisa que via a sua frente, tentara invocar todos os rituais que lhe vinham a mente. Recorria a todos os deuses e santos que lhe vinham à cabeça.

Um dos "monstros" estava tentando segura-la o outro já havia pegue Beatriz a estava espancando.

Espancada, maculada, abatida. As marcas roxas formadas pelo acumulo de sangue surgiam com velocidade na pele branca da garota. O fôlego já lhe faltava, os socos na barriga expulsava o ar e sangue dos pulmões. Mal tinha forças para chorar ou gritar, por mais que tentasse escapar sempre era pega novamente, as pernas resistiam às tentativas do agressor de quebrá-las. Vez ou outra ele a jogava no chão e pisava na criança esmagando-lhe o pequeno corpo.


Bianca via sua irmã ser espancada diante de seus olhos e nada podia fazer... Corria por entre os móveis, se esgueirava para não ser pegue, uma roncha cobrindo quase toda a canela era o resultado de uma pequena flalha. Sua perna havia sido agarrada em uma das vezes que tentou chegar a sua irmã, havia escapado mas isso havia lhe custado o osso da calela que acabara quebrando diante da força com que o monstro a segurara.

Gritava desesperada e tentava encontrar uma solução sem muita alternativa. A dor insuportável do osso esmagado que feria os músculos lhe tirava a concentração.

Era uma luta sem sentido, não havia como elas escaparem. Beatriz já parara de resistir e o outro mostro agora já começava a se empenhar em ajudar a pegar Bianca.

A menina arremessava tudo o que via pela frente nos invasores. Não sabia se iria causar-lhe dano, se iria derrubá-los, era apenas o instinto de sobrevivência que faz com que qualquer criatura, mesmo que da forma mais banal e claramente ineficaz, tente sobreviver.

Até que uma das coisas que Bianca havia jogado nos “monstros” quebrou e começou a brilhar, uma luz forte que tomou todo o lugar cegando a vista. Os invasores gruniram de dor, o barulho de algo derretendo e um forte cheiro de enxofre preencheu todo o local.

E tudo se fez luz.
E Deus viu que a Luz era boa, e fez separação entre a Luz e as Trevas

Quando pode enxergar novamente não havia mais nenhum monstro no local. Beatriz estava no chão, todo seu corpo sangrava, seus olhos perdiam o foco, suas pupilas dilatavam - Dói, dói muito- a menina dizia quase sem conseguir pronunciar. Bianca sabia o que iria acontecer se sua irmã não fosse tratada imediatamente. Pelo desnível no busto podia deduzir algumas costelas quebradas.

- Vamos procurar ajuda...

- Bi... Eles vão voltar - Disse com reunindo suas forças

- Venha eu te ajudo a levantar... Precisamos sair daqui...

- Você sabe que eu não vou resistir, você não vai encontrar quem me cure tão rápido. Principalmente... cof *sangue* cof... se eu for com você.

- O que eu faço... Por favos, meu Deus... Por favor...

- Eu estou com medo.- segurando forte a manga da blusa da irmã

- Fique calma, seja forte, afinal você é e sempre foi o orgulho da casa, lembra...- E Deu um beijo na testa de sua irmã. - Vai dar tudo certo... eu prometo...

- Acho que seu beijo não vai fazer sarar...

- Quem sabe, não é?

- Eu te amo minha irmã.

- Não fale como se estivéssemos nos despedindo, não estamos. Eu vou conseguir ajuda e tudo ficará bem. Você confia em mim...

- Sim...

- Então não se preocupe... eu vou dar um jeito...

- Não deixe de sorrir nunca, está bem?! E não deixe que eles peguem você. Descubra quem são e porquê estão fazendo isso conosco...

- Não pense nisso, o principal agora é encontrarmos ajuda para você... Eu vou ver se encontro alguem...

- Não esqueça. - disse segurando a manga da blusa da irmã

- Nunca...- e se abraçaram- Eu te amo minha irmã, então por favor não me deixe está bem?!

- Não chore, eu te disse para sorrir. E nem está mais doendo tanto... Eu só estou com sono...- Beatriz começou a fechar os olhos lentamente

- Beth, não, não durma Beth. Acorde...

- Eu não vou dormir... -Ainda com os olhos fechados- Vou ficar aqui esperando você voltar.

- Não feche os olhos, por favor não feche os olhos...- As lágrimas corriam por sua face como se tranbordassem uma dor da alma.

- Cuide do Alex por nós duas está bem, pare de discutir com ele... Seja forte...

- Não fale assim, vai dar tudo certo. Deus vai nos ajudar- Aos prantos

- Eu te disse para não chorar... Sua boba...- Tocando a na face de Bianca

- Está bem, eu não vou chorar. Beatriz... eu te amo tanto, por favor, não me deixe- Ainda chorando

- Eu também te amo... agora vá... encontre alguém antes que seja tarde demais...

Bianca enchugou as lágrimas, repousou sua irmã cuidadosamente no chão e começou a tentar se levantar. Seu corpo parecia pesar o triplo do normal. A perna latejava como se recusase a se manter presa ao corpo.

- Não esqueça nada do que eu te disse -

Bianca asentiu com a cabeça e olhou fixamente para sua irmã antes de pular a janela.
Como se quisesse decorar cada detanhe.
Como se não quisesse perder nada.
Para não esquecer aquele rosto nunca mais.
Deixou sua irmã, pulou a janela e saiu desesperadamente a procura de ajuda. À suas costas se distanciava cada vez mais a grande casa que ficava um pouco distante das outras casas.

Em alguns minutos chegou à vila. No caminho de volta encontrou com seus pais com Alexander voltando do treino. Não houve tempo para explicações. Três palavras foram o suficiente para fazer com que todos fosse a toda velocidade de volta para casa

– Ataque... Beatriz... morrendo-
***
Como uma labareda de fogo...

A casa toda estava em chamas formando uma única labareda que podia ser avistada à distancia.

- NÃAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAO

O grito de Bianca ressoou por todo o local. Um grito tão desesperado que parecia que estavam torturando-a. A menina correu em direção a casa. Podia sentir o calor das chamas aumentando a medida que se aproximava.

A adrenalina fazia esquecer a dor da perna que sangrava. A dor de ver a casa em chamas era tão intensa que tomava todo o corpo e não a deixava sentir mais nada. Teria entrado na casa se Alexander não a tivesse segurado. Chegou a lutar contra o irmão mas não adiantou muito.

- Foi minha culpa...
- Ela morreu... Por minha culpa...

Se Alexander não a tivesse segurado, naquele momento, aquela casa teria se feito túmulo para mais uma Angellin. Teria padecido alí, completamente, a alma que se fizera duas para que nascesse as duas pequeninas.
As últimas de uma linhagem de Captare,
que fugiram à regra e nasceram como Querubim
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Adriel e Alice correram para a construção mas quando estavam entrando, o teto ruiu e quase desabou sobre eles.

A casa desmoronou e a cada pedaço de madeira que caia Bianca gritava mais.

Até perder suas forças.
Até não conseguir pronunciar mais nada.
Todo seu corpo doía e parecia que as chamas a sua frente a consumiaUma parte de si estava morrendoUma dor de corpo e alma...

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O incêndio só foi controlado no dia seguinte. E, quando terminaram de apagar as chamas e as brasas esfriaram, começaram a procurar o corpo de Beatriz nos escombros.

Nada além de cinzas foi encontrado

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