A casa estava estranhamente silenciosa. Era difícil ter que se acostumar a isso. Nada mais de coisas quebrando ou de carreiras e gritos por entre os móveis. Não havia mais risos ecoando pelo local. Era muito difícil se acostumar a uma casa assim.Era complicado imaginar que não haveria mais brincadeiras nem histórias contadas à noite. Não haveria mais teste para descobrir quem era quem quando as gêmeas resolviam trocar de lugar. Na realidade, recusava-se a acreditar que tudo isso estivesse acontecendo. Desejava estar em um pesadelo. Logo iria acordar com as duas meninas pulando em sua cama o chamando para ajudar em mais alguma de suas armações.
Seguiu pelo corredor sem fazer barulho. Os pés descalços sentiam o piso frio sem se importar. Equilibrava uma bandeja em suas mãos com algo para Bianca comer. Em breve a menina iria desmaiar de fome se continuasse a se recusar a se alimentar. Parou diante da porta e escutou o choro agoniado e desesperado de sempre. Respirou fundo e tentou conter as lágrimas. Se para ele era complicado imaginar como a vida seria sem Beatriz, imaginava como deveria estar sendo para Bianca... O mundo daquela pequena criança deveria estar a desabar...

- Por favor... Por favor, parem com isso...
- Bianca?
A menina chorava suplicando com as duas mãos encostadas às paredes olhando para o teto.
- Agüentem um pouco mais... NÃO GRITEM! POR FAVOR, PAREM DE GRITAR! Eu estou tentando, eu estou tentando... - Dizia se voltando aos móveis em desespero cobrindo os ouvidos com as mãos.
O captare largou a bandeja e correu em direção à menina. A tomou nos braços e começou a indagá-la.
- Bianca... O que está acontecendo, Bianca? - A menina titubeou o olhar pelo local passando por Alexandre como se não estivesse o vendo, o captare a chamou sua atenção mai uma vez. - Bianca!
- Al? - disse entre alguns soluços e logo entrou em pânico- NÃO, NÃO, NÃO... VOCÊ PRECISA FUGIR! VOCÊ TEM QUE FUGIR OU TUDO VAI CAIR SOBRE VOCÊ TAMBÉM... NÓS DOIS VAMOS MORRER... CORRE. CORRE!...
- Bianca, do que você está falando?
- As paredes... Elas não estão mais agüentando o peso do teto. Vais tudo cair... Os móveis ficam gritando para que eu faça alguma coisa... Eles não querem morrer... Mas o teto vai cair destruindo tudo... Você precisa sair daqui!
O corpo da menina estava suado e vermelho, podia-se ver os riscos vermelhos do sangue a flor da pele. Os olhos avermelhados e inchados pelo choro constante não se fixavam em lugar nenhum, percorriam o local em um ritmo frenético. A menina se soltou dos braços do captare e se agarrou novamente às paredes...
- Sejam fortes... Agüentem um pouco mais... Estão cansadas, elas estão dizendo, não agüentam mais. Querem parar de sustentar o teto e se deitar um pouco... Sabem que vão destruir a tudo, sabem que vão se quebrar... Mas não suportam mais... Os móveis estão muito agitados... Estão desesperados e já não sabem mais o que fazer. Eles gritam muito e meus ouvidos estão doendo.
- Por que você não foge? - Disse o captare - Se tudo isso vais desmoronar, por que você não foge?
Porque ficar aqui e ser esmagada com eles?
A menina se voltou ao captare com uma expressão confusa no rosto. Antes que pudesse formular alguma resposta caiu sobre os joelhos apertando a cabeça com as mãos
- PAREM DE GRITAR! SOCOOOORRO!
- Bianca... Bianca se acalme...
- SOCOOOOOOOOOOOOORRO... TUDO ESTÁ CAÍNDO...
- BIANCA! - O captare já não sabia o que fazer. A menina se desvencilhava de seus braços e corria pelo quarto. Chocava-se contra alguns móveis e chegava a se ferir. Chorava copiosamente... Desviando dos destroços imaginários que caíam do teto, chegava às paredes e as empurrava com toda a força que tinha como se quisesse mantê-las no lugar.
- Eu suplico... Sejam fortes mais um pouco... CALEM-SE! PAREM DE GRITAR TODOS VOCÊS!
A menina se deixou cair sobre os joelhos. Flexionava as mãos contra as paredes imóveis
O captare escutava as súplicas da criança já sem conter as lágrimas.

As paredes eram ela.
Os móveis era seu instinto querendo sobreviver.
O teto era a culpa pela morte da irmã...
Alexander ajoelhou-se atrás da irmã e colocou suas mãos ao lado das mãos da pequena.
- As paredes não vão cair. Elas não te contaram? - A menina levantou o rosto para olhas a face do irmão se compreender. Ele continuou - As paredes não estão segurando o teto sozinhas. Junto com elas, estão os pilares de concreto da casa. Eles estão segurando o teto junto com elas e não vão deixar o nada desabar.
A menina parecia começar a se acalmar. Os dois permaneciam com as mãos repousadas sobre as paredes. A menina já não fazia mais força, sua respiração ainda ofegava, a pele ainda estava vermelha, mas os olhos se fixavam no rosto do captare com atenção.
- Eu não escuto os pilares. Elas não me falaram nada sobre eles. Eu nãos os vejo... - Disse olhando em volta do quarto.
- Eu escuto. Eles me contaram que as paredes não precisam se preocupar. Quando elas perceberem que os pilares estão ao seu lado, vão ver que não precisam suportar o peso do teto sozinhas. Eles querem ajudá-las.
- Vocês estão ouvindo? - Disse a menina olhando para o quarto.
- Os móveis ainda gritam?
- Não... Eles estão escutando você agora...
- Vocês não precisam se preocupar vai dar tudo certo...
- Um Hum!
- Vamos comer alguma coisa agora?! Eu estou morrendo de fome...
A menina negou com a cabeça afastou-se e se deitou no chão repousando apenas a cabeça no como de Alexander.
- Cansada?
- Um hum
- Quer dormir um pouco?
- Não posso dormir...
- Mas você precisa descansar...
- Mas eu tenho medo dos pesadelos - Susurrou
- Eu estou aqui, eu vou te proteger de qualquer coisa... Sempre...
Lágrimas silenciosas começaram a correr a face da menina. Não queria fechar os olhos. Não queria mergulhar naquele pesadelo novamente. Sentia a mão quente e aconchegante de Alexander a afagar-lhes os cabelos. Aquela mão acalmava os demônios que perturbavam a mente, mas não conseguiam suprir a dor que dilacerava a alma.

O corpo exausto mergulhava calmamente em uma escuridão sem fim. Os olhos cedem e se cerram. Escuridão é substituída por uma luz intensa. Amarelada e quente que passa a envolver todo o lugar.
Fogo
Um fogo que dilacerava a pele e destruia a carne com tanto impeto que a mente não conseguia suportar a dor. E se vê um espelho, um espelho a refletir uma criatira em chamas. A mão indandecida tenta tocar o vidro, mas a mão não toca uma parede dura e sólida de um vidro espelhado. A mão toca uma outra mão que também ardia em chamas. Tenta segura-la mas antes de conseguir, nota a outra mão tombando e indo ao chão.

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